Trabalhos informais e por conta própria já superam o emprego formal no Brasil
Pessoas procuram vagas de empregos em cartazes no centro de São Paulo
Há cerca de dois anos, enviar currículos para
diferentes empresas virou rotina diária da engenheira hídrica Leilane
Rocha Abreu, de 32 anos. Natural de Diamantina, em Minas Gerais, ela se
mudou para o Rio de Janeiro, em 2012, após receber uma boa oferta de
emprego para trabalhar como terceirizada na
Petrobras.
Porém, acabou sendo dispensada em 2016 depois que estourou a crise na
petroleira, envolvida no maior esquema de corrupção do país. Do lado de
fora da estatal, a situação tampouco era favorável. O país atravessava
a pior recessão das últimas décadas,
com alto índice de desemprego e a área de engenharia também amargava
uma das piores fases. Cansada das negativas e da falta de oportunidades
no seu setor, acabou optando, no início de 2017, por uma vaga de
vendedora em uma loja de shopping durante um ano, ganhando um salário
70% menor do que o que recebia como engenheira.
Cláudia
Lemos, de 46 anos, formada em gestão financeira, também foi uma das
vítimas do desemprego recente. Foi demitida, em março de 2015, de uma
empresa em São Paulo em que atuava há anos como supervisora de cobrança
de veículo e só foi conseguir um novo emprego mais de um ano depois em
um restaurante, como auxiliar administrativa e cuidadora do caixa. Assim
como Leilane, ela teve que aceitar uma proposta de salário bem abaixo
da sua anterior. Atualmente, ganha quase a metade do que recebia no
emprego anterior. "Acho que a minha idade pesa para uma recolocação de
emprego, mas o momento ainda está difícil e não vejo muito oferta",
conta Cláudia.
Com oportunidades ainda escassas, em um país que fechou o ano passado com uma
taxa de desemprego média de 2017 de 12,7%
- a maior da série história que começou em 2012 -, não são poucos o
brasileiros que assim como Leilane e Cláudia precisaram aceitar esse
desafio: trabalhar em posições para as quais são mais qualificados do
que o exigido ou que tiveram que aceitar salários bem menores do que
recebiam em empregos anteriores. É o que os especialistas chamam de
downgrade de carreira.
Uma pesquisa realizada pelo site de anúncios de
vagas de emprego Catho, mostrou que 82% dos entrevistados afirmaram que,
para se recolocar no mercado, têm aceitado ou aceitaria salários
menores do que o emprego anterior. Já 30% disseram que chegaram a omitir
informações sobre suas qualificações para poderem concorrer a vagas
inferiores ao cargo que possuíam anteriormente. Apenas 17% responderam
que não aceitariam cargo e salário abaixo do anterior. A pesquisa foi
realizada com 742 profissionais da base nacional da Catho e divulgada no
fim do ano passado.
Recrutadores e consultores de carreira coincidem
que essa situação tem se tornado cada vez mais comum no país, que somou
12,3 milhões de desempregados no último trimestre, mas que na hora de
avaliar uma proposta é preciso pensar a médio prazo. "É normal que para
não ficar fora do mercado, ele aceite uma proposta com cargo ou salário
abaixo do seu último emprego, mas, de alguma forma, ele precisa se
programar, avaliar se há alguma forma de crescer dentro da empresa para
conseguir recuperar a queda de renda no futuro", explica Elen Souza,
psicóloga e assessora de carreira da Catho.
Para Emerson Dias, consultor de carreira, dar um
passo para trás na carreira em tempos de crise, muitas vezes, não é uma
questão de opção e sim de necessidade. Entretanto, uma alternativa mais
radical de mudar de segmento embute um risco maior se a ideia é que esse
passo seja transitório. "O risco é você não conseguir mais voltar para
sua área. Quando você afasta, perde o contato, atualizações. Mas num
momento como esse você sempre tem o argumento da crise. Não foi uma
transição porque você quis, mas porque o mercado te obrigou", explica.
Emprego com carteira é minoria
Após perder o emprego de carteira assinada, Edson Maciel se tornou motorista do aplicativo Uber
É o caso de Edson Maciel, de 39 anos, que após
muitos anos trabalhando com carteira assinada, teve que partir para o
trabalho por conta própria. Responsável por gerenciar uma frota de
carros executivos do banco Itaú, em São Paulo, ele foi demitido em 2014
e, desde então, nunca mais conseguiu um trabalho registrado. Primeiro
participou de uma sociedade com a mulher no setor do varejo, mas depois
optou por ser motorista do aplicativo Uber. "Hoje ganho menos do que
ganhava e não tenho mais nenhum benefício. Preciso pagar seguro de saúde
para mim e todos da minha família. Se eu colocar na ponta do papel,
ganho 60% do meu último salário de carteira", conta Maciel que continua
procurando uma recolocação no mercado e aguarda o resultado de um
concurso público que prestou no último ano.
Segundo o IBGE, somando os 11,1 milhões de
trabalhadores que atuam sem carteira e os que resolveram trabalhar por
conta própria (23,1 milhões), o total é maior que o número de
trabalhadores registrados. São 34,2 milhões de informais para 33,
milhões de registrados. Os números revelam, que apesar de alguns
indícios de melhora na economia brasileira nos últimos meses, o mercado
de trabalho ainda sofre com os efeitos da crise e, como é de costume,
deve ser o último componente a reagir .
"Existe claramente uma entrada expressiva de
pessoas trabalhando principalmente em ocupações voltadas para a
informalidade. Não temos ainda recuperação da carteira, não existe
qualquer indício disso. Qualidade do emprego gerado, portanto, é
questionável", afirmou em coletiva de imprensa nesta semana Cimar
Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE.
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/02/politica/1517580002_384940.html
Acesso: 4 fev. 2018.