Por Heloísa Mendonça
No início de janeiro, o aplicativo brasileiro de transportes 99 foi comprado
pela plataforma chinesa de transporte Didi Chuxing, em um negócio que o
avaliou em 1 bilhão de dólares. Foi a primeira vez que uma startup brasileira
foi elevada ao patamar de "unicórnio", o apelido dado ao seleto grupo
das que valem 1 bilhão de dólares ou mais. No mundo, alguns unicórnios
famosos incluem aplicativos como Airbnb, Snapchat, Pinterest e Spotify. O caso mais bem sucedido, no entanto, é o do Uber. A companhia possui hoje um valor de mercado de quase 70 bilhões de dólares.
Apesar da posição inédita da 99 no país, o Brasil possui atualmente
outros fortes candidatos que podem alcançar o posto em pouco tempo. Três
empresas despontam na frente na avaliação de especialistas: o Nubank, que criou o cartão de crédito roxinho
que não cobra anuidade, a Movile, dona do aplicativos iFood e PlayKids,
entre outros, e a PSafe, que oferece um aplicativo de antivírus para
smartphones.
As três reúnem características comuns entre elas e difíceis de encontrar
em grande parte das startups brasileiras. Elas conseguiram nos últimos
anos atrair aportes financeiros altos, criaram produtos ou serviços que
conquistaram uma alta adesão do público e não param de crescer.
Dinheiro e uma boa ideia são realmente uma dupla importante para as
startups que esperam deslanchar, mas não são suficientes na visão do
fundador do Nubank, o colombiano David Vélez. "O mais importante de tudo é a capacidade de execução. Para mim, 10% é ideia e 90% execução.
E ideias complicadas são as melhores. Se você consegue fazer algo
difícil tem menos concorrência, contratar pessoas interessadas no
projeto fica mais fácil e captar investimento também", diz.
Vélez sabe bem o que é investir em uma ideia complicada. Quando pensou,
em 2013, em criar um cartão de crédito sem tarifas, solicitado e gerido
via aplicativo, não faltaram pessoas que tentaram desencorajá-lo. Como
competir com os cinco grandes bancos do Brasil - que detêm 90% do
sistema financeiro - era uma pergunta constante. Hoje, a fintech
- nome dado pelo mercado às startups de tecnologia focada em serviços
financeiros, cresce 10% ao mês, fechou 2017 com 3 milhões de clientes e,
de acordo com analistas de mercado, vale cerca de 800 milhões de
dólares. A startup já recebeu quatro rodadas de investimentos nos
últimos anos que somaram um aporte de quase 180 milhões de dólares.
Conquistar o título de unicórnio nada mais é que uma "métrica de
vaidade" segundo Vélez. Sua meta é fazer com que os produtos da sua
empresa consigam estar aqui nas próximas décadas. É continuar crescendo.
"Mas não vou comentar muito [sobre quando a empresa deve atingir o
valor de mercado de 1 bilhão de dólares] pois quem sabe já aconteceu?",
diz ao EL PAÍS.
Eduardo Henrique, cofundador e diretor de novos negócios da Movile
sonha com um unicórnio diferente. "O nosso objetivo é chegar em 2020
com um bilhão de usuários. Essa sim é a nossa briga, com o outro não
estamos tão preocupados", diz. A meta a ser alcançada é ousada já que
atualmente os serviços da Movile têm ao todo 150 milhões de usuários
mensais em todo o mundo. Além do Brasil, a startup atua nos Estados
Unidos, México, Argentina, Colômbia, Peru e França. Mas a empresa gosta
de sonhar grande e vem colhendo frutos: nos últimos 8 anos registrou
crescimento anual médio de 60%.
A startup que nasceu em 1998 cresceu fornecendo serviços para as
operadoras de celular, como notícias e jovens via SMS. Mas com a queda
desse tipo de mensagem, ela precisou se expandir para outras frentes.
Lançou o aplicativo PlayKids (uma espécie de Netflix para crianças) e
começou a investir em dezenas de startups. Entre as aquisições e fusões,
estão: Sympla, Rapiddo, MapLink, Apontador e SuperPlayer. O
investimento de maior visibilidade no entanto foi no iFood,
aplicativo de entrega de comida em domicílio que é líder de mercado no
Brasil, hoje o maior negócio da Movile, a menina dos olhos.
Evoluir para outras frentes foi uma das decisões acertadas da Movile
para continuar crescendo. Segundo Vinck de Bragança, porta-voz da
Associação Brasileira de Startups (ABStartups), esse foi também uma das
estratégias utilizadas para a 99 traçar o caminho rumo ao grupo dos
unicórnios. "A 99 tinha um bom produto, em que as pessoas podiam pedir
um táxi via aplicativo. Mas, logo veio o Uber, um grande concorrente,
oferecendo carros particulares com um preço mais barato. Eles então
tiveram a sacada de juntar as duas coisas: táxi e carros particulares,
através da modalidade 99POP. Voltaram a ganhar mercado", explica.
A PSafe também evoluiu e adaptou seu modelo de negócio. A empresa de
segurança no mundo de tecnologia começou apostando na plataforma
Windows, mas em 2014 mudou para o Android, do Google, e aí sim começou a
vingar no mercado. Hoje ela possui um escritório no Vale do Silício e
conquistou um porte mundial, concorrendo com empresas chinesas.
Apesar do número de startups ter aumentado nos últimos anos - atualmente
são mais de 4.200 registradas na ABStartups -, a quantidade das que
sobrevivem por muito tempo ainda é pequena. De acordo com Bragança, não
há dados oficiais, mas cerca de 25% delas consegue passar dos dois anos.
"Para ter sucesso é preciso encontrar um produto forte com mercado
forte também. Mas muitas das startups quebram porque o nível de pressão é
muito grande, muitos não possuem maturidade para empreender", diz.
Na visão de Eduardo Henrique, da Movile, os empreendedores brasileiros
devem expandir o mercado em outros territórios. "A Argentina, por
exemplo, que não tem um mercado interno tão grande como o do Brasil
pensam em expandir para o exterior mais que os brasileiros, que, muitas
vezes, ficam aqui acomodados". Na avaliação de Henrique, esse foi um dos
motivos que levaram o país vizinho a ter dois unicórnios - Mercado
Livre e Decolar.com- muito antes que o Brasil.
O atraso brasileiro cai, entretanto, na conta de muitos outros fatores,
como a burocracia para abrir uma empresa, regulações,falta de integração
das universidades locais com o mercado e também o baixo incentivo do
Governo nas startups. "Na China, o maior investidor de startups de
tecnologia é o Governo. Há uma política de incentivo para
investidores-anjo [pessoas físicas que investem seu capital próprio em
empresas nascentes com alto potencial de crescimento]. Aqui as ações
ainda são muito pontuais, não há uma agenda contundente", diz o
cofundador da Movile.
Raio X das candidatas a unicórnio
Nubank
David Vélez, fundou em 2014, junto com Edward Wible e Cristina Juqueira, a startup baseada no uso de tecnologia, que nasceu oferecendo cartões de crédito- roxinhos - sem anuidade, sem tarifas e com taxas de juros mais baixas do que as praticadas pelo mercado brasileiro. Tudo 100% digital. O cliente abre uma conta por meio do aplicativo no celular, pede o cartão e recebe em menos de cinco dias.
No fim de 2017, a fintech
deu o primeiro passo para se transformar em um banco e criou a NuConta.
Uma conta bancária no qual o dinheiro passa a render automaticamente em
uma taxa indexada aos títulos públicos, mais rentável que a poupança.
Funcionários: 850
Estimativa de valor de mercado: 800 milhões de dólares
Principais investidores: Sequoia Capita, Founders Fund, Tiger Glval Management e DST Global.
Movile
A Movile é a empresa por trás de alguns dos maiores aplicativos brasileiros: iFood, Sympla e Play Kids. A startup que foi criada em 1998 (chamava-se Compera) por Fabrício Bloisi cresceu fornecendo serviços para as operadoras de celular, como notícias e jovens via SMS.
Funcionários: 1.600
Estimativa de valor de mercado: 800 milhões de dólares
Principais investidores: Naspers e Innova Capital
PSafe
Fundada em 2011, por Maco DeMello, a Psafe oferece aplicativos de segurança usados para encontrar vírus e outras ameaças de segurança em smartphones e tablets com sistema operacional Android. Ao oferecer o aplicativo de forma gratuita, a empresa ganha dinheiro ao exibir publicidade aos usuários do serviço.
Estimativa de valor de mercado: 500 milhões de dólares
Principais investidores: Pinacle Ventures. Qihoo 360 Technology
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/17/economia/1516221676_427405.html
Acesso: 24 jan. 2018.

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