sábado, 9 de setembro de 2017

PESSOAS, EMPRESAS E GOVERNOS INVESTEM NA COLABORAÇÃO, CRIATIVIDADE E NO COMPARTILHAMENTO PARA INOVAR E OFERECER SOLUÇÕES SUSTENTÁVEIS


Os moradores de Seul, capital da Coreia do Sul, tinham um problema: ao ir para o centro da cidade com seus carros, não encontravam vagas para estacionar. Para resolver a questão, o governo tinha como opção construir garagens subterrâneas, o que poderia custar milhões, demorar para solucionar o problema, além de causar incômodo. A solução proposta, no entanto, foi simples: mapear as garagens dos moradores locais que ficavam vazias na região, durante o dia, e oferecê-las como alternativa para estacionar os automóveis. Em contrapartida, o valor recebido poderia ser investido em melhorias no próprio condomínio.

A história de Seul é um exemplo da Economia Compartilhada, que visa utilizar os recursos já existentes de uma forma sustentável. Juntamente com os conceitos de Economia Colaborativa e Criativa, vem ganhando notoriedade nos últimos tempos com o surgimento de alternativas no mercado que ajudam a aproveitar a abundância existente no planeta. Segundo a pesquisadora Lala Deheinzelin, as três economias estão no começo, mas têm um grande potencial pela frente. “Elas vão juntar três grandes dinâmicas exponenciais: conhecimento, criatividade e processos distribuídos em rede. Temos aí uma possibilidade quase infinita de soluções para empresas, comunidades, países e um mundo melhor”, ressalta.
Embora muitas vezes os termos Economias Colaborativa, Criativa e do Compartilhar sejam usadas com o mesmo significado, Lala explica que há diferença entre elas. “A Economia Compartilhada usa as novas tecnologias para mapear as estruturas já existentes e costuma ser um processo centralizado”, conta. O Airbnb é um exemplo. Por meio da plataforma, pessoas de diversas partes do mundo estão conectadas e podem colocar suas casas, apartamentos e quartos para serem alugados ou se hospedar em acomodações por um preço mais acessível. “O processo usa a rede, mas ele não é em rede, já que o Airbnb é uma empresa com donos que regulam o seu funcionamento”, explica Deheinzelin.
Já a Colaborativa tem um processo descentralizado, onde cada um faz um pouco em torno de uma causa. Um exemplo conhecido é a Wikipedia, que permite que pessoas do mundo todo se conectem para escrever artigos sobre diversos assuntos na enciclopédia digital.
A Economia Criativa, por sua vez, usa o capital intelectual das pessoas para gerar novos bens e serviços. “Ela é transdisciplinar, já que envolve vários atores diferentes, e visa buscar soluções inovadoras não só em áreas artísticas, mas também em tecnologia, comunicação e comercialização, por exemplo”, explica Lala.

DE VOLTA AO ESCAMBO

Trocar sementes por peixes, frutas por temperos, roupas por cadeiras. Séculos atrás, o escambo era o principal meio de ter acesso a determinados produtos. Agora, ele está de volta, só que em uma versão mais moderna, que usa a tecnologia para promover a troca entre pessoas do mundo todo.
O Bliive é uma rede alternativa de troca de tempo. Criado pela brasileira Lorrana Scarpioni, a plataforma permite que uma pessoa ofereça, por exemplo, uma hora de aula de violão e em troca recebe um Time Money, a moeda da rede. Depois, é possível trocar o Time Money por outra atividade disponível na plataforma, como aula de culinária, ajuda na mudança ou alguém para passear com o cachorro.
Lorrana conta que a ideia de criar o Bliive veio de dois documentários. “Um deles falava sobre economias alternativas e como a nossa relação com o dinheiro pode ser mais saudável do que é hoje, porque muitas vezes temos os recursos, mas imaginamos que são escassos porque não temos uma moeda”, comenta. O outro falava sobre o crescimento da colaboração na internet e citava o exemplo de 16 mil torcedores de um time que estava falindo que se uniram para comprá-lo. “A internet permitiu isso, porque sem a tecnologia essas 16 mil pessoas não saberiam que tinham uma paixão em comum e o poder para fazer isso”, ressalta.
A plataforma foi lançada em 2013 e conta com mais de 100 mil usuários, de 112 países. Já teve mais de 90 mil horas de experiências compartilhadas e ganhou prêmios como o Intel Global Challenge e o Creative Business Cup Brazil. Lorrana ainda foi reconhecida em 2014 como uma das dez jovens brasileiras mais inovadoras pelo MIT Technology Review. Além disso, o UK Trade & Investment investiu na plataforma. “Passamos um ano no Reino Unido, com todo o suporte e networking do UK”, conta a empreendedora.
Lorrana diz que o que mais a motiva na plataforma são as experiências. “As pessoas usam o Bliive porque elas têm uma paixão e realmente querem usar isso como uma forma de impactar o mundo. Também usam porque querem ter acesso a um serviço ou adquirir conhecimento e o Bliive soa como uma alternativa”, explica.
O site também conta com uma plataforma privada, o Bliive Grupos, específico para organizações. “Muitas vezes, as empresas não conhecem os talentos que possuem e acabam contratando pessoas de fora para fazer uma atividade que algum colaborador poderia ajudar”, comenta. Dessa forma, a rede permite que os colaboradores compartilhem entre si, com a empresa, ou que façam algum tipo de trabalho voluntário em ONGs parceiras.

COLABORAÇÃO NAS EMPRESAS

As grandes empresas também encontram na Economia Colaborativa, Criativa e Compartilhada uma oportunidade de crescimento. “Elas estão fazendo parcerias com startups, por exemplo, para ter soluções inovadoras desenvolvidas com a agilidade e a criatividade dos jovens”, comenta Lorrana.
A Stefanini lançou em 2014 o programa OpenStartups, visando estabelecer parcerias para oferecer aos seus clientes uma solução mais completa e inovadora. Ao todo, foram selecionadas 18 empresas que compartilharam com seus conhecimentos em áreas como cloud, e-commerce, social media, varejo, recursos humanos, recursos financeiros, Big Data e marketing.
Outro exemplo que pode ser utilizado nas empresas é a participação dos clientes. Em 2013, a Natura lançou o programa CoCriando, cujo objetivo é ampliar a inovação na empresa por meio de ideias encaminhadas pelos usuários da marca. “É uma rede de pessoas apaixonadas por inovação, cocriação e que entram por terem afinidade com a marca e o formato e buscam opinar sobre os temas de que mais gostam”, explica Juliana Oliveira, coordenadora do Cocriando Natura. O projeto tem uma plataforma on-line, onde os consumidores entram, se cadastram e podem opinar nas jornadas que estão em andamento.
Em um processo de avaliação interno, a Natura decide qual desafio deve ser levado para a plataforma. “Quando identificamos o desafio, enviamos os convites para pessoas que se interessam pelo tema, para os que já estão cadastrados na plataforma e para todos que seguem as páginas do programa nas redes sociais. Também levamos o convite para eventos dos quais a Natura participa”, ressalva a coordenadora.
Por meio do CoCriando, as pessoas se conectam e interagem on-line e podem ser convidadas a participar de encontros presenciais. “O consumidor está cada vez mais empoderado e quer ser protagonista de diversas causas, inclusive das que envolvem as marcas com as quais têm afinidade”, ressalta Juliana. Segundo uma pesquisa feita pela agência de comunicação Edelman, 87% dos consumidores querem uma relação mais significativa com as marcas, mas apenas 17% acreditam que isso ocorre.
Ao todo, o CoCriando já teve 11 jornadas, com temas como transparência, bem-estar da mãe, inovação, aplicativo de maquiagem, customização, sustentabilidade, entre outros. Mais de mil pessoas se cadastraram na plataforma, quatro mil acompanham a página nas redes sociais e os resultados são positivos: mais de três mil contribuições foram enviadas. Segundo a coordenadora, o programa já trouxe diversos benefícios para a empresa e para os consumidores. “Eles percebem o reconhecimento da marca pelo indivíduo, e isso promove uma maior fidelização e engajamento”, conta.
As economias alternativas podem ser aplicadas em qualquer tipo de iniciativas, mas o principal desafio é torná-las conhecidas. “No caso do CoCriando, muitas pessoas acreditam que é uma pesquisa; por isso temos de explicar que a abordagem é parecida, mas a colaboração é mais aberta e recebe pessoas por afinidade que têm abertura para criar”, explica Juliana.
A especialista Lala Deheinzelin também destaca a importância dessas alternativas serem mais conhecidas. “A resistência ao novo sempre existe e ela diminui na medida em que se experimenta e verifica que realmente funciona”, finaliza.

SITES DE ECONOMIAS ALTERNATIVAS

Airbnb – Possibilita que pessoas se hospedem na casa, apartamento ou quarto de outros, ou disponibilizem suas acomodações para temporada. Está presente em mais de 30 mil cidades.
My Open Closet – Permite compartilhar vestidos de festas e acessórios que podem ter sido comprados para uma ocasião especial e, depois, ficou parado no guarda-roupa.
Dinneer – Pessoas que gostam de cozinhar oferecem jantares em suas casas para visitantes.
Quintal de trocas – Voltado para crianças, o site permite trocar brinquedos, jogos, livros e fantasias.

Por Beatriz Silva – DFreire

Fonte: https://stefanini.com/br/2016/02/a-era-das-economias-alternativas/

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