PESSOAS,
EMPRESAS E GOVERNOS INVESTEM NA COLABORAÇÃO, CRIATIVIDADE E NO COMPARTILHAMENTO
PARA INOVAR E OFERECER SOLUÇÕES SUSTENTÁVEIS

Os
moradores de Seul, capital da Coreia do Sul, tinham um problema: ao ir para o
centro da cidade com seus carros, não encontravam vagas para estacionar. Para
resolver a questão, o governo tinha como opção construir garagens subterrâneas,
o que poderia custar milhões, demorar para solucionar o problema, além de
causar incômodo. A solução proposta, no entanto, foi simples: mapear as
garagens dos moradores locais que ficavam vazias na região, durante o dia, e
oferecê-las como alternativa para estacionar os automóveis. Em contrapartida, o
valor recebido poderia ser investido em melhorias no próprio condomínio.
A
história de Seul é um exemplo da Economia Compartilhada, que visa utilizar os
recursos já existentes de uma forma sustentável. Juntamente com os conceitos de
Economia Colaborativa e Criativa, vem ganhando notoriedade nos últimos tempos
com o surgimento de alternativas no mercado que ajudam a aproveitar a
abundância existente no planeta. Segundo a pesquisadora Lala Deheinzelin, as
três economias estão no começo, mas têm um grande potencial pela frente. “Elas
vão juntar três grandes dinâmicas exponenciais: conhecimento, criatividade e
processos distribuídos em rede. Temos aí uma possibilidade quase infinita de
soluções para empresas, comunidades, países e um mundo melhor”, ressalta.
Embora
muitas vezes os termos Economias Colaborativa, Criativa e do Compartilhar sejam
usadas com o mesmo significado, Lala explica que há diferença entre elas. “A
Economia Compartilhada usa as novas tecnologias para mapear as estruturas já
existentes e costuma ser um processo centralizado”, conta. O Airbnb é um
exemplo. Por meio da plataforma, pessoas de diversas partes do mundo estão
conectadas e podem colocar suas casas, apartamentos e quartos para serem
alugados ou se hospedar em acomodações por um preço mais acessível. “O processo
usa a rede, mas ele não é em rede, já que o Airbnb é uma empresa com donos que
regulam o seu funcionamento”, explica Deheinzelin.
Já a
Colaborativa tem um processo descentralizado, onde cada um faz um pouco em
torno de uma causa. Um exemplo conhecido é a Wikipedia, que permite que pessoas
do mundo todo se conectem para escrever artigos sobre diversos assuntos na
enciclopédia digital.
A
Economia Criativa, por sua vez, usa o capital intelectual das pessoas para
gerar novos bens e serviços. “Ela é transdisciplinar, já que envolve vários
atores diferentes, e visa buscar soluções inovadoras não só em áreas
artísticas, mas também em tecnologia, comunicação e comercialização, por
exemplo”, explica Lala.
DE VOLTA
AO ESCAMBO
Trocar
sementes por peixes, frutas por temperos, roupas por cadeiras. Séculos atrás, o
escambo era o principal meio de ter acesso a determinados produtos. Agora, ele
está de volta, só que em uma versão mais moderna, que usa a tecnologia para
promover a troca entre pessoas do mundo todo.
O Bliive
é uma rede alternativa de troca de tempo. Criado pela brasileira Lorrana
Scarpioni, a plataforma permite que uma pessoa ofereça, por exemplo, uma hora
de aula de violão e em troca recebe um Time Money, a moeda da rede. Depois, é
possível trocar o Time Money por outra atividade disponível na plataforma, como
aula de culinária, ajuda na mudança ou alguém para passear com o cachorro.
Lorrana
conta que a ideia de criar o Bliive veio de dois documentários. “Um deles
falava sobre economias alternativas e como a nossa relação com o dinheiro pode
ser mais saudável do que é hoje, porque muitas vezes temos os recursos, mas
imaginamos que são escassos porque não temos uma moeda”, comenta. O outro
falava sobre o crescimento da colaboração na internet e citava o exemplo de 16
mil torcedores de um time que estava falindo que se uniram para comprá-lo. “A
internet permitiu isso, porque sem a tecnologia essas 16 mil pessoas não
saberiam que tinham uma paixão em comum e o poder para fazer isso”, ressalta.
A
plataforma foi lançada em 2013 e conta com mais de 100 mil usuários, de 112
países. Já teve mais de 90 mil horas de experiências compartilhadas e ganhou
prêmios como o Intel Global Challenge e o Creative
Business Cup Brazil. Lorrana ainda foi reconhecida em 2014 como uma das dez
jovens brasileiras mais inovadoras pelo MIT Technology Review. Além
disso, o UK Trade & Investment investiu na plataforma.
“Passamos um ano no Reino Unido, com todo o suporte e networking do UK”, conta
a empreendedora.
Lorrana
diz que o que mais a motiva na plataforma são as experiências. “As pessoas usam
o Bliive porque elas têm uma paixão e realmente querem usar isso como uma forma
de impactar o mundo. Também usam porque querem ter acesso a um serviço ou
adquirir conhecimento e o Bliive soa como uma alternativa”, explica.
O site
também conta com uma plataforma privada, o Bliive Grupos, específico para
organizações. “Muitas vezes, as empresas não conhecem os talentos que possuem e
acabam contratando pessoas de fora para fazer uma atividade que algum
colaborador poderia ajudar”, comenta. Dessa forma, a rede permite que os
colaboradores compartilhem entre si, com a empresa, ou que façam algum tipo de
trabalho voluntário em ONGs parceiras.
COLABORAÇÃO
NAS EMPRESAS
As
grandes empresas também encontram na Economia Colaborativa, Criativa e
Compartilhada uma oportunidade de crescimento. “Elas estão fazendo parcerias
com startups, por exemplo, para ter soluções inovadoras desenvolvidas com a
agilidade e a criatividade dos jovens”, comenta Lorrana.
A
Stefanini lançou em 2014 o programa OpenStartups, visando estabelecer parcerias
para oferecer aos seus clientes uma solução mais completa e inovadora. Ao todo,
foram selecionadas 18 empresas que compartilharam com seus conhecimentos em
áreas como cloud, e-commerce, social media, varejo, recursos humanos, recursos
financeiros, Big Data e marketing.
Outro
exemplo que pode ser utilizado nas empresas é a participação dos clientes. Em
2013, a Natura lançou o programa CoCriando, cujo objetivo é ampliar a inovação
na empresa por meio de ideias encaminhadas pelos usuários da marca. “É uma rede
de pessoas apaixonadas por inovação, cocriação e que entram por terem afinidade
com a marca e o formato e buscam opinar sobre os temas de que mais gostam”,
explica Juliana Oliveira, coordenadora do Cocriando Natura. O projeto tem uma
plataforma on-line, onde os consumidores entram, se cadastram e podem opinar
nas jornadas que estão em andamento.
Em um
processo de avaliação interno, a Natura decide qual desafio deve ser levado
para a plataforma. “Quando identificamos o desafio, enviamos os convites para
pessoas que se interessam pelo tema, para os que já estão cadastrados na
plataforma e para todos que seguem as páginas do programa nas redes sociais.
Também levamos o convite para eventos dos quais a Natura participa”, ressalva a
coordenadora.
Por meio
do CoCriando, as pessoas se conectam e interagem on-line e podem ser convidadas
a participar de encontros presenciais. “O consumidor está cada vez mais
empoderado e quer ser protagonista de diversas causas, inclusive das que
envolvem as marcas com as quais têm afinidade”, ressalta Juliana. Segundo uma
pesquisa feita pela agência de comunicação Edelman, 87% dos consumidores querem
uma relação mais significativa com as marcas, mas apenas 17% acreditam que isso
ocorre.
Ao todo,
o CoCriando já teve 11 jornadas, com temas como transparência, bem-estar da
mãe, inovação, aplicativo de maquiagem, customização, sustentabilidade, entre
outros. Mais de mil pessoas se cadastraram na plataforma, quatro mil acompanham
a página nas redes sociais e os resultados são positivos: mais de três mil
contribuições foram enviadas. Segundo a coordenadora, o programa já trouxe
diversos benefícios para a empresa e para os consumidores. “Eles percebem o
reconhecimento da marca pelo indivíduo, e isso promove uma maior fidelização e
engajamento”, conta.
As
economias alternativas podem ser aplicadas em qualquer tipo de iniciativas, mas
o principal desafio é torná-las conhecidas. “No caso do CoCriando, muitas
pessoas acreditam que é uma pesquisa; por isso temos de explicar que a
abordagem é parecida, mas a colaboração é mais aberta e recebe pessoas por
afinidade que têm abertura para criar”, explica Juliana.
A
especialista Lala Deheinzelin também destaca a importância dessas alternativas
serem mais conhecidas. “A resistência ao novo sempre existe e ela diminui na
medida em que se experimenta e verifica que realmente funciona”, finaliza.
SITES DE
ECONOMIAS ALTERNATIVAS
Airbnb
– Possibilita
que pessoas se hospedem na casa, apartamento ou quarto de outros, ou
disponibilizem suas acomodações para temporada. Está presente em mais de 30 mil
cidades.
My Open
Closet – Permite
compartilhar vestidos de festas e acessórios que podem ter sido comprados para
uma ocasião especial e, depois, ficou parado no guarda-roupa.
Dinneer
– Pessoas
que gostam de cozinhar oferecem jantares em suas casas para visitantes.
Quintal
de trocas – Voltado
para crianças, o site permite trocar brinquedos, jogos, livros e fantasias.
Por
Beatriz Silva – DFreire
Fonte: https://stefanini.com/br/2016/02/a-era-das-economias-alternativas/
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