EXISTE UM POVOADO DA AMAZÔNIA QUE TEM A ECONOMIA BASEADA EM TROCA
O antropólogo Roberto Rezende
morou durante seis meses na reserva extrativista de Alto Juruá
Piadas infames à parte, a região
do extremo oeste do Acre permanece como um território ainda pouco integrado ao
restante do Brasil. Para conhecer seus habitantes, que vivem distantes dos
grandes centros econômicos do país, o antropólogo Roberto Rezende morou durante
seis meses na reserva extrativista de Alto Juruá, próximo à
fronteira com o Peru e a 560 quilômetros de Rio Branco, a capital acreana.
Lá, o pesquisador conviveu com
comunidades que baseavam sua subsistência na cooperação entre familiares. “São
relações de troca e ajuda: no período da colheita do roçado, por exemplo, um
irmão solicita o auxílio do outro, e assim se estabelece uma espécie de
dívida”, diz Rezende, que defendeu uma tese de doutorado na Unicamp com base no
trabalho de campo.
Segundo o pesquisador, os
moradores das comunidades dividem o tempo de acordo com suas prioridades: quem
deseja ter maior conforto material e uma vida com “padrão de novela” trabalha
na agricultura para vender o produto no mercado da cidade. A visão romantizada
desse estilo de vida, no entanto, não escapa da existência de interesses
políticos de candidatos a vereadores e prefeitos da região. Leia nosso
papo completo:
Quando foi a primeira
vez que visitou a reserva?
Fui pela primeira vez em 2006, era um projeto de educação e capacitação com os moradores. Em 2008, fiz o mestrado sobre uma análise da transformação histórica da região: as pessoas que viviam lá eram descendentes de imigrantes nordestinos que se casaram com mulheres indígenas e, ao longo das décadas, desenvolveram um modo de vida próprio. Mas o preço da borracha caiu muito e as pessoas ficaram sem alternativas econômicas: então, começaram a se mudar para as beiras dos rios e viver em comunidades. Trabalhei na pesquisa de doutorado com uma dessas comunidades e minha intenção era avaliar se essa transição também transformava as relações econômicas.
Como as relações de troca nas comunidades acontecem?
Existiam alguns estudos em comunidades amazônicas que afirmavam que essas relações eram “desinteressadas”, mas no caso que estudei isso não se aplica: um homem, por exemplo, tem um roçado e ele precisa de ajuda, de mais trabalhadores. Então, ele pede ajuda ao seu irmão e ele sabe que está em dívida quando houver outra colheita do roçado. Mas as relações estabelecidas com os políticos não são muito diferentes: se o político te dá o que prometeu, ele é bom. Isso tem uma aplicação sobre o assistencialismo e paternalismo.
Existiam alguns estudos em comunidades amazônicas que afirmavam que essas relações eram “desinteressadas”, mas no caso que estudei isso não se aplica: um homem, por exemplo, tem um roçado e ele precisa de ajuda, de mais trabalhadores. Então, ele pede ajuda ao seu irmão e ele sabe que está em dívida quando houver outra colheita do roçado. Mas as relações estabelecidas com os políticos não são muito diferentes: se o político te dá o que prometeu, ele é bom. Isso tem uma aplicação sobre o assistencialismo e paternalismo.
Qual é o tipo de
produção que existe na região?
Eles são em grande parte agricultores e há grupos de casas que se especializam em uma produção para a venda. Essas atividades são complementadas com caça e pesca. O modo de vida é baseado na multiplicidade de atividades: na casa que morei, por exemplo, o homem prestava serviços de piloto – outras pessoas são donas de moto serra e alugavam o equipamento quando alguém precisava construir sua casa ou uma canoa.
Há muitas diferenças
culturais?
Cada casa da comunidade tinha autonomia de decidir a produção: tinha gente que gostava de ter uma casa com “padrão de novela”, com sofá, estante: então, investiam tempo para produzir alimentos e vendê-los para comerciantes. Mas também tinha gente que queria comer bem e por isso dedicava mais tempo para caçar aves, pacas, porcos do mato, veados, macacos e jabutis.
17/08/2016 - 19H08/ ATUALIZADO
19H0808 / POR THIAGO TANJI
Fonte: http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/08/existe-um-povoado-da-amazonia-que-tem-economia-baseada-em-troca.html
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