A NECESSIDADE
DA FILOSOFIA NA ECONOMIA, POR MARCOS VILLAS-BÔAS.

Não existe Economia sem Filosofia - Os maiores
pensadores da Economia eram e são filósofos
A Filosofia é uma disciplina, um curso, mas também
uma atitude. Ela busca o questionamento, a transgressão do senso comum, as
causas últimas das coisas, uma compreensão mais profunda dos temas, a sua
evolução histórica.
Por culpa de muitos dos filósofos e por culpa do
materialismo humano, a Filosofia é frequentemente tida por algo abstrato, sem
consequências práticas, talvez até de pouca utilidade. Criou-se um preconceito
contra ela e aqueles nela interessados.
Não existe, no entanto, conhecimento aprofundado
sem algum grau de Filosofia. Ela fixa as premissas do conhecimento e da
metodologia de pesquisa, sendo imprescindível ao rigor científico e,
especialmente, à imaginação. Busque os maiores cientistas do mundo e quase
todos eram ou são interessados na Filosofia.
O importante físico Stephen Hawking sempre foi
interessado pelo começo das coisas, pelo tempo e por outras questões que dizem
respeito à existência do cosmos e do homem. Apesar de nem ele mesmo tomar conta
disso, pois vem afirmando que a Filosofia está morta[1], sempre foi interessado em questões
filosóficas, ainda que tente respondê-las mais baseado em elementos
científicos.
O problema com Hawking é que, como muitos, ele
talvez não compreenda bem como ciência e Filosofia estão interconectadas. Uma
não vive sem a outra. Ele afirmou no mesmo evento que os filósofos não
acompanharam os avanços da Física, mas talvez não esteja ciente de todos os
avanços que a Filosofia possibilitou à Física, e vice-versa.
A cibernética, que proporcionou avanços
tecnológicos fantásticos ao mundo, é uma disciplina transdisciplinar com forte
carga filosófica.
Edgar Morin e Basarab Nicolescu, dois interessados
em Física e Filosofia, são responsáveis pela criação e desenvolvimento da linha
de pensamento chamada Transdisciplinaridade, que estará no centro do
conhecimento humano durante este século.
O próprio Hawking afirmou no ano 2000, ao ser
perguntado se este seria o século da Física após o século XX ter sido o século
da Biologia, que este seria o século da complexidade, que é tema de interesse
central para muitos filósofos, inclusive para a mencionada
Transdisciplinaridade. Por tais razões, creio que a colocação de Hawking, ao
supostamente diminuir a Filosofia, estava dentro de um contexto específico e tenha
sido mal divulgada.
Albert Einstein, talvez o maior físico da história
mundial, era um entusiasta e estudioso da Filosofia, pois os grandes temas da
Física estão intimamente ligados com os problemas da Filosofia da Ciência.
Respondendo a uma carta enviada a ele em 1944, Einstein afirmou o seguinte:
“Eu concordo totalmente com você
sobre o significado e o valor educacional da Metodologia, assim como da
História e da Filosofia da Ciência. Muitas pessoas hoje – e mesmo cientistas
profissionais –parecem alguém que já viu milhares de árvores, mas nunca viram
uma floresta. Um conhecimento do fundo histórico e filosófico dá aquela
independência dos preconceitos da sua geração, com os quais muitos deles vêm
sofrendo. Essa independência criada por insight filosófico é, na minha opinião,
a marca distintiva entre um mero artesão ou especialista e um real buscador da
verdade”[2].
Salvo algumas ideias típicas da época, como a da
busca pela verdade, a assertiva de Einstein não poderia ser mais acurada e
atual. É muito claro que os grandes pensadores, aqueles profetas que fazem
importantes descobertas e a diferença no mundo, se separam dos especialistas do
dia a dia, que são encontrados aos montes, por conta da profundidade histórica
e filosófica, que potencializam os seus talentos, sobretudo sua imaginação
criativa.
Isso explica porque os ocupantes de cargos
importantes como o de Ministro do Estado não podem ser meros especialistas,
apenas bons naquilo que fazem, por exemplo, em instituições financeiras. Um
Ministro da Fazenda não pode ser um banqueiro, “cabeça de planilha”, que fica
fazendo cálculos e tem respostas prontas para problemas como a inflação e o
desenvolvimento conforme seja mais ortodoxo ou mais heterodoxo[3].
Posições importantes no Estado devem, preferencialmente,
ser ocupadas por pensadores com forte experiência prática. Deve-se escolher
indivíduos com vivência no dia a dia da área e conhecimento dos problemas, mas
também que tenham conhecimento histórico, filosófico, que entendam os problemas
vividos no Brasil e no mundo, as soluções utilizadas e, acima de tudo, que
tenham imaginação institucional.
Os maiores pensadores da Economia da história
humana, Adam Smith e Karl Marx, eram interessados em diversos assuntos,
especialmente em Filosofia. O brilhante livro A Riqueza das Nações, apesar de
ter inaugurado a Economia Moderna, não era propriamente um livro de Economia,
mas de Economia Política, uma disciplina transdisciplinar, que cruza
conhecimentos filosóficos, históricos, sociológicos, econômicos, políticos e
outros.
O pensamento de Smith é completamente distorcido há
muitos anos por fins político-ideológicose/ou por ignorância. É preciso
considerar que ele nem sequer era um economista, mas um filósofo, que estou
Filosofia Social na Universidade de Glasgow e em Oxford.
Outro aspecto importante da história de Smith é a
data em que viveu. Ele faleceu em 1790, momento no qual muitos entendem que
sequer estaria completamente estabelecido o Capitalismo. Alguns entendem que o
Mercantilismo foi a primeira fase do Capitalismo, porém vários outros autores
compreendem que este apenas se constituiu completamente no início do século
XIX.
Ambas as visões concordam, no entanto, que apenas
houve a formação de um Capitalismo Industrial, com um mercado amplo e
competitivo, mais similar ao de hoje, entre os anos de 1820 e 1840 na
Inglaterra, bem após a morte de Smith. Foi Marx quem conheceu esse novo
Capitalismo, mas que também precisa ser contextualizado, pois o mundo e o
conhecimento são completamente diferentes do que ele encontrou à época.
Em suma, utilizar Smith e Marx de forma
descontextualizada, sem considerar a filosofia e a metodologia de cada um, como
fazem hoje direitistas e esquerdistas, é um non
sense, consequência de má fé e/ou ignorância.
O primeiro livro de Smith, publicado em 1759,
tratava de Filosofia Moral e Social, e pregava ideias que parecem bastante
esquecidas por aqueles que o usam hoje para defender, sob um falacioso e
isolado clamor por liberdade, simplesmente mais individualidade e menos Estado.
Smith era extremamente preocupado com as relações
humanas e a qualidade moral delas. Ele tinha um bom senso social e pregava a
construção de relações de amor que dariam prazer àqueles envolvidos e
contagiariam o restante da sociedade:
“O sentimento de amor é agradável em si para a
pessoa que o sente. Ele suaviza e acalma o peito, e parece...promover o estado
saudável de sua constituição; e isso é feito ainda mais encantador pelo senso
de gratidão e satisfação que o amor dele deve despertar na pessoa que é objeto
desse amor. A mútua consideração deles os faz felizes um com o outro, e essa
consideração mútua, adicionada a simpatia, os faz mais agradáveis para toda a
sociedade”[4].
Nunca se viu, nem se verá um desses fãs
conservadores de Smith, que nem sequer o leram adequadamente, citar um trecho
como esse. Inúmeras partes do clássico A Riqueza das Nações são distorcidas, a
exemplo de:
“Dê-me aquilo que quero e você terá o que quer é o
sentido de qualquer oferta; e é dessa maneira que nós obtemos um do outro a
imensa maioria das coisas de que precisamos. Não é da benevolência do padeiro,
do cervejeiro e do açougueiro que nós esperamos o nosso jantar, mas do ponto de
vista do seus próprios interesses”[5].
Smith, enquanto filósofo e pensador, passa o seu
livro analisando como acontecem as relações de troca, a divisão do trabalho e
outras questões econômicas. Esse trecho, muito citado pelos autores, apenas
queria demonstrar que as trocas aconteciam por meio do convencimento dos demais
de que um determinado negócio era também bom para eles. Não se poderia contar
com a benevolência, com a caridade dos homens. Essa é uma ideia simples, não
tendo o sentido que muitos tentam dar a ela.
Smith foi um dos expoentes do Iluminismo Escocês,
período no qual a liberdade era aclamada como o principal direito dos seres
humanos. Não é à toa que suas análises, repletas de considerações de Filosofia
Moral, davam muita importância à individualidade e à liberdade de cada indivíduo
agir, empreender. Acontece que, ao mesmo tempo, ele pregava o bom agir, assim
como regras morais e jurídicas que garantissem isso.
O mesmo acontece com Marx, que nasceu na Prússia em
1818, tendo falecido em 1883. Ele viveu o início do Capitalismo Industrial,
tendo encontrado uma sociedade bastante segmentada, o que lhe levou a construir
sua noção de luta de classes, válida à época, masa ser totalmente revisada para
se adequar à sociedade brasileira atual.
Marx falava o alemão, sua língua nativa, francês, pois
nasceu e viveu a infância em cidade muito próxima à França, mas também estudou
Inglês, Italiano e Latim. Formou-se em direito em Bonn e doutorou-se em
filosofia em Iena. Ele se encantou pela Filosofia desde muito cedo e, no
Doutorado, tratou das diferenças entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e
Epicuro.
Durante a sua juventude, esteve envolvido com os
“jovens hegelianos”, apesar de que Hegel ainda não era tão presente nos seus
primeiros textos. Curiosamente, após romper com os hegelianos, iniciou-se a
influência clara de Hegel sobre sua obra, mas numa busca de avançar nas ideias
dele.
Aos 26 anos, escreveu as anotações que se tornariam
os Manuscritos Econômico-Filosóficos após a sua morte, uma certa base do seu
pensamento. Sem compreender a lógica dialética idealista hegeliana e o
materialismo dialético histórico de Marx, não é possível interpretar bem a sua
obra econtextualizá-la para os dias de hoje.
Apesar da genialidade de Marx tê-lo colocado bem à
frente dos pensadores do seu tempo e de ele ter uma visão bastante
histórico-filosófica, o seu condicionamento ao reducionismo, ao mecanicismo e
ao determinismo da época é claro em certos momentos.
Parece que Marx lutava contra essas influências
modernas, como quando considerava que o homem era o formador da sociedade e
suas instituições, mas não conseguia se desvencilhar delas em algumas partes do
seu pensamento, como na própria visão de que o Capitalismo estaria determinado
ao fracasso e que este teria uma forma certa pela qual aconteceria.
A conciliação da crença em leis econômicas naturais
com a influência histórica sobre as relações socioeconômicas pode ser vista
nesse trecho do Prefácio à Primeira Edição do clássico O Capital:
“Por isso é que me estendi tanto,
neste volume, sobre a história, o conteúdo e os resultados da legislação
inglesa relativa às fábricas. Uma nação deve e pode aprender das outras. Mesmo
quando uma sociedade descobriu a pista da lei natural do seu desenvolvimento
(...) ela não pode saltar nem suprimir por decreto as suas fases naturais de
desenvolvimento. Mas ela pode abreviar e minorar as dores do parto.[6]”
Sem compreender a Filosofia da Idade Moderna e a
sua evolução rumo à entrada na Pós-Modernidade, que, para alguns, começou e,
para outros, está por começar, não há como compreender Smith e Marx. Para uma
aplicação avançada das ideias desses gênios nos dias atuais, é preciso
filtrá-los com base no que há de mais evoluído, como o pensamento complexo.
Roberto Mangabeira Unger, um filósofo, é hoje um
dos maiores pensadores da Economia no mundo. Seus cursos de Filosofia da
Economia em Harvard são bastante concorridos e espantam os alunos, que vêm de
diferentes áreas, tamanha a capacidade e criatividade do professor brasileiro.
Não é à toa que ele figura em listas de maiores pensadores do planeta com certa
frequência.
Mangabeira lecionou por alguns anos uma disciplina
de Economia Política com Dani Rodrik, professor da Harvard Kennedy School, a
mais importante escola de governo do mundo. No primeiro parágrafo do prefácio
do seu último livro “Economics Rules: Why Economics Works, When It Fails, and
How to Tell the Difference” (Regras Econômicas: por que a Economia funciona,
quando ela falha e como dizer a diferença), Rodrik afirma o seguinte:
“Este livro tem origem num curso que ensinei com
Roberto Mangabeira Unger sobre Economia Política por vários anos em Harvard. No
seu inimitável estilo, Roberto me fez pensar seriamente sobre as forças e
fraquezas da Economia e articular o que eu achava útil no método econômico. A
disciplina tinha se tornado estéril e caduca, Roberto argumentava, porque a
Economia havia desistido da sua grande teorização social no estilo de Adam
Smith e Karl Marx”.
O relato de um dos maiores economistas do mundo
expõe, ao mesmo tempo, a importância que Mangabeira tem hoje como pensador e a
relevância de se retornar com os estudos econômicos sob uma perspectiva
filosófica e de teoria social na forma de Smith e Marx, sempre devidamente
contextualizados historicamente para os dias de hoje.
Pela falta de espaço aqui, voltarei a tratar mais
detidamente em outros textos acerca das falácias sobre Smith e Marx. Após eles,
prevaleceu na Economia a corrente marginalista com sua “matematização”, que a
tornou estéril, segundo Mangabeira e Rodrik. Surgiu uma disciplina formal, de
números, planilhas, quase sempre focada na monetarização da economia e no
mercado financeiro.
Mais tarde, aqueles que tiveram grande destaque e
promoveram criações grandiosas, como John Maynard Keynes e o ainda vivo Amartya
Sen eram também filósofos.
Keynes era bastante envolvido com os filósofos de
Cambridge e foi, juntamente com o gênio Frank Ramsey, um dos melhores amigos de
Ludwig Wittgenstein, com quem trocou muitas ideias nas décadas de 20 e 30. Sen,
vencedor do Prêmio Nobel, é professor da Faculty of Arts and Sciences (FAS) de
Harvard, onde está o Departamento de Filosofia.
Soluções melhores para a Economia e a economia
apenas surgirão quando os seus estudiosos e operadores cruzaremmuito bem várias
disciplinas, como História, Sociologia, Psicologia e, sobretudo, Filosofia.
[3]Apenas uso essa distinção entre
ortodoxos e heterodoxos por ser comum no Brasil, pois ela é redutiva e
limitada, de modo que causa confusões. Essa dualidade limita o pensamento, pois
há ideias boas dos dois lados. Quem procura respostas complexas e boas políticas
públicas não pode se reduzira um ortodoxo ou a um heterodoxo, até porque,
dentro desses dois gêneros gigantes, existem inúmeras espécies, às vezes bem
distintas.
SAB,
18/06/2016 - 15:01
ATUALIZADO
EM 18/06/2016 - 16:55
fonte: http://jornalggn.com.br/noticia/a-necessidade-da-filosofia-na-economia-por-marco-villas-boas
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