ALTERNATIVAS: AS CASAS COMUNITÁRIAS DE BERLIM.
Numa cidade sob intensa
especulação imobiliária, cresce também a resistência. A partir de “squats”
anarquistas, avançam as cooperativas de co-habitação. Como funcionam?
“A Revolução
onde você vive” [“The Revolution Where You Live”]: é este o título de um livro
inspirador, que a jornalista norte-americana Sarah van Gelder acaba de lançar.
O objetivo está escancarado no título. Sarah, que edita a revista
eletrônica “Yes”,
pensa que estão se multiplicando, em todo o mundo, lógicas anticapitalistas
para enfrentar problemas com que as comunidades se deparam. Ela está empenhada
em relatar estes experimentos que as mídias convencionais escondem e que, para
ela, são parte de uma revolução do quotidiano.
Há dois anos, em agosto de 2015, Sarah começou uma
longa jornada pelos EUA: sozinha, viajou num minitrailler por 18 estados, 5
Reservas de Nativos Americanos e 12 cidades ou pequenos municípios, cobrindo
cerca de 7 mil quilômetros. “Parti em busca de esperança. Estava
profundamente preocupada com a crise climática, a desigualdade e exclusão
racial, sérias divisões partidárias e corrupção dos endinheirados. Parecia que
nossa sociedade ia simplesmente desmoronar. Voltei acreditando que temos o que
precisamos para conseguir muito mais coisas. Na verdade, encontrei enorme
inteligência, criatividade e energia construtiva nas classes populares, e
conheci gente que estava descobrindo seu próprio poder a alcançando progressos
notáveis”, diz ela.
Outras Palavras passa a publicar os textos de
Sarah, escritos no transcurso de das viagens que faz pelo mundo dando
palestras. A primeira, que relatamos a seguir, é sobre a luta por moradia em
Berlim, assaltada pela especulação imobiliária, em ocupações que jovens,
artistas, professores e outros transformaram em criativa vida
comunitária. (Inês
Castilho).
San Francisco costumava ser famosa por sua cultura
tolerante e criativa. Hoje, é mais famosa por seu custo de vida astronômico; o
aluguel médio para um apartamento de um dormitório, no início deste ano, era R$
10,7 mil (U$ 3.368). Cidades com arte, música e cenas sociais vibrantes estão
sendo duramente impactadas pela gentrificação. O padrão se repete em cidades
por todo canto. Artistas, jovens, ativistas, agricultores urbanos e pequenos
empresários começam a revitalizar uma cidade. Então chegam os especuladores
imobiliários. Tanto os antigos moradores quanto os que criaram os novos
cenários são expulsos, deixando a cidade apenas para os super ricos – e os
novos sem-teto.
Mas esse não é o único futuro possível para uma
cidade badalada, e Berlim é um caso exemplar. Há anos, anarquistas ocupam
prédios abandonados e terrenos vazios. Cooperativas e outros arranjos de vida
compartilhada oferecem opções acessíveis. Movimentos sociais emergiram para
proteger essas iniciativas e combater o deslocamento de residentes pobres e de
classe média.
Durante uma viagem para palestras na Alemanha
visitei Spreefeld, uma cooperativa de habitação construída no centro de Berlim.
A comunidade, livre de carros, está localizada no Rio Spree. Mas ao invés de
reservar apenas aos residentes o acesso, os criadores incluiram maneiras de
convidar o público a caminhar pelo terreno. Os moradores trabalham junto com
uma ocupação vizinha chamada Teepee Land para facilitar o acesso do público ao
rio e a ambas as comunidades. A cooperativa gastou anos convencendo a
prefeitura a permitir a plantação de uma horta comunitária ao longo da calçada
junto ao rio, ali perto. Os membros da cooperativa esperam que o conceito, se
funcionar, possa ser replicado em outros trechos da calçada.
O modelo Spreefeld vem do que o autor e urbanista
Michael LaFond chama de “cultura de co-habitação (co-housing)”. LaFond,
fundador do Instituto para Sustentabilidade Criativa, um norte-americano que
vive em Berlim, ajudou a fundar Spreefeld e vive lá agora.
As cooperativas têm uma história que remonta à
metado do século XIX em Berlin, conta LaFond. Ele estima que cerca de 250 a 300
ocupações existiram em algum momento nos anos 1970, tanto na parte leste como
na oeste de Berlim. Pessoas jovens, especialmente anarquistas, ocuparam prédios
vazios como um modo de graça ou gastanto muito pouco, e de proteger os
edifícios da cidade contra demolição a pretexto de “renovação urbana”. O
movimento tornou-se suficientemente poderoso para impedir a prefeitura de
expulsar os ocupantes facilmente. Ao contrário: a administração municipal
trabalhou com as ocupações para comprar as propriedades de proprietários
ausentes e ofereceu financiamento para quem quisesse recuperar os prédios.
Muitas dessas ex-ocupações são agora cooperativas. Os
fundadores de Spreefeld foram influenciados por essa cultura da autoajuda e
pelo modelo escandinavo de co-habitação que ajudou a lançar um movimento
semelhante nos Estados Unidos. Mas os residentes de Spreefeld também
acrescentaram suas próprias ideias.
LaFond me convidou para almoçar no cozinha comum,
que serve as 21 unidades de seu edifício.
“Quando você volta para casa no final da tarde, há
comida na mesa e no forno”, disse. “Com frequência encontra pessoas sentadas
aqui nesta grande mesa; pode sentar, conversar e relaxar no fim do dia.”
Os dois primeiros andares desses prédios são
dedicados ao uso público e da comunidade. Há espaços de trabalho para
co-working, workshops e galerias. Uma creche atrai famílias da vizinhança.
Espaços para música, yoga e dança estão disponíveis para membros da comunidade
e o público em geral, assim como uma cozinha, um amplo espaço para reuniões e
uma marcenaria.
Algumas partes do edifício podem mudar conforme
mudam as necessidades. Quando houve a recente crise dos refugiados, os
moradores converteram dois espaços em apartamentos para acolher duas famílias
recém-chegadas.
Entre os residentes há professores, trabalhadores
em saúde, artistas e administradores de pequenos negócios e ONGs, muitos dos
quais teriam dificuldade de encontrar moradia acessível se não vivessem em
Spreefeld. Alguns mantêm os custos mais baixos escolhendo pequenos espaços
privados e usando as cozinhas e banheiros comunitários, enquanto os que têm
melhor renda procuram modos de ajudar a cobrir despesas que podem ser um peso
para seus vizinhos.
Por Sarah
van Gelder | Tradução: Inês
Castilho
Fonte: https://outraspalavras.net/posts/alternativas-as-casas-comunitarias-de-berlim/
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