QUANDO AS EMPRESAS SÃO MAIS PODEROSAS QUE OS PAÍSES

Tim Cook, da Apple, explica como é a nova sede da empresa JOSH EDELSON AFP / GETTY
Gigantes
da tecnologia transformaram o poder corporativo e dados viraram o recurso mais
valioso, não o petróleo.
Imagine
uma companhia com a influência do Google,
do Facebook ou da Amazon.
E que ainda recebe do Estado o monopólio do comércio com uma zona geográfica.
Também pode cobrar impostos, assinar acordos comerciais, prender criminosos e
declarar guerras. Esses eram alguns dos poderes e atribuições da Companhia
Holandesa das Índias Orientais, criada no século XV por empresários com apoio do
Governo dos Países Baixos para comercializar com a Ásia.
Foi a primeira corporação transnacional que emitiu bônus e ações
no mercado para financiar seu crescimento, um notório precedente que, séculos
depois, chegou às multinacionais modernas. Os novos gigantes empresariais não
contam com os excepcionais privilégios da histórica companhia holandesa, mas sua
receita e seu valor na Bolsa superam o PIB de dezenas de países.
Hoje, a
concentração de poder é especialmente clara no setor tecnológico. As cinco
grandes – Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon – são as mais valiosas
da Bolsa. Sua capitalização oscila entre os
500 bilhões de dólares (1,6 trilhão de reais) do Facebook e os 850 bilhões de
dólares (2,7 trilhões) da Apple. Com esse critério – um tanto volátil, mas
indicador do potencial de uma empresa –, se a Apple fosse um país, teria um
tamanho similar ao da economia turca, holandesa ou suíça. O Vale do Silício,
além disso, tem uma presença considerável nos novos negócios: o Google abocanha
88% da fatia de mercado de publicidade on-line. O Facebook (incluindo
Instagram, Messenger e WhatsApp) controla mais de 70% das redes sociais em
celulares. A Amazon tem 70% da fatia de mercado dos livros eletrônicos e, nos
Estados Unidos, absorve 50% do dinheiro gasto em comércio eletrônico.
As
companhias das Índias (britânicos e franceses também tiveram as suas durante o
período colonial) foram um reflexo de seu tempo, mas seu poder faz lembrar, em
certos aspectos, o das grandes corporações atuais. São os novos colonos? A
organização não governamental Global Justice Now realiza uma classificação que
compara as cifras de negócios das principais empresas com a renda orçamentária
dos países. Segundo essa lista, se a rede norte-americana de supermercados
Walmart fosse um Estado, ocuparia o décimo posto, atrás dos EUA, China,
Alemanha, Japão, França, Reino Unido, Itália, Brasil e Canadá. No total, 69 das
100 principais entidades econômicas são empresas. As 25 corporações que mais
faturam superam o PIB de numerosos países.
Comparação da cifra de negócio das empresas com os rendimentos consignados nos orçamentos dos países. GLOBAL JUSTICE NOW







Seria
ingênuo pensar que o setor privado não influi nas decisões políticas, na
elaboração de leis e no dia a dia dos cidadãos. Como esse poder se articula
hoje? Moisés Naím afirma em O Fim do
Poder (LeYa) que as estruturas estáticas que caracterizavam as grandes
empresas há algumas décadas, como as das chamadas Sete Irmãs (conglomerados que
controlaram a indústria petroleira entre os anos quarenta e setenta), mudaram.
O padrão, que se repetia na maioria dos setores, consistia em “poucas
companhias que dominavam seus respectivos mercados e eram tão grandes, ricas,
potentes e arraigadas que era impensável prescindir delas.”
O autor,
membro do Carnegie Endowment for International Peace, um think tank de
Washington, diz que o próprio conceito de poder empresarial é agora mais
volátil, flexível e fragmentado. “Criou-se um ambiente em que é mais fácil para
os novos – em geral, não só na economia, inclusive os que têm ideias tóxicas –
conseguir poder”, afirma Naím. “ExxonMobil, Sony, Carrefour e JPMorgan
Chasetêm um poder imenso e autonomia, mas seus líderes estão mais
limitados agora”, completa. Para se adaptar a essa transformação, a humanidade
deve “encontrar novas formas de se governar a si mesma.”
O poder
hoje é mais competitivo. Reduziram-se as barreiras de entrada: chegam ao topo
novas companhias, como a Inditex, e desaparecem clássicos como a Compaq. “É
preciso levar em conta o horizonte temporal, porque há 10 anos falávamos do
domínio da Microsoft e agora já não”, responde Naím numa entrevista, em referência
ao poder do Google e do Facebook. Ele prefere não comparar empresas com países.
“Não se mede a capacidade de influir necessariamente pelo faturamento de uma
empresa em relação ao PIB de um país, já que a forma do poder empresarial
difere da do Estado”, esclarece. Além disso, há novos atores cada vez mais
influentes, como as novas firmas de investimento, os fundos especulativos (hedge
funds) e mercados como os dark pools, onde se negocia a compra
e venda de ações sem a supervisão das autoridades.
O novo
poder ficou mais intangível. “As empresas têm hoje menos ativos fixos e menos
funcionários, reflexo de uma nova maneira de produzir, mais voltada aos
serviços e ao conhecimento”, afirma Jesús María Valdaliso, professor de
História e Instituições Econômicas da Universidade do País Basco e coautor
de Historia Económica de la Empresa (história econômica das
empresas).
Além
disso, hoje os dados são um ativo essencial. Milhões de cidadãos se informam,
se relacionam com os amigos e compram na Internet. Vão deixando pelo caminho um
rastro de informações que se transformaram no “petróleo da era digital”, segundo a
revista The Economist. Esses dados pessoais permitem a elaboração
de perfis dos usuários graças aos algoritmos, que podem aprender, em minutos,
padrões de comportamento que um ser humano levaria anos para identificar. “Uma
das grandes estratégias das empresas de tecnologia é o efeito rede: quanto mais
usuários, melhor. Porque as pessoas utilizam o serviço que você presta, por
mais entediante que ele seja, se outras também usarem. Afinal, como não estar
no Facebook se todos os seus amigos também estão?”, afirma o jornalista Noam
Cohen, autor de The Know-It-Alls: The Rise of Silicon Valley as a
Political Powerhouse and Social Wrecking Ball (2017) (o sabe-tudo: o
auge do Vale do Silício como centro político e bola de demolição social).
Poucos escolhem viver à margem das redes sociais.
Como é o
efeito político desse novo ouro negro? Através da rede, pode-se
influir na opinião pública, como se vê na investigação em andamento nos EUA
sobre as interferências da Rússia nas eleições que deram a vitória a Trump há
um ano, nas quais o Facebook, o Google e o Twitter foram fundamentais. “As
empresas de tecnologia temem que, mais cedo ou mais tarde, tente-se aprovar uma
norma que altere substancialmente seu modelo de negócios”, explica Pankaj
Ghemawat, professor da New York University e da IESE Business School. Autor
de World 3.0: Global Prosperity and How to Achieve It (mundo
3.0: a prosperidade global e como alcançá-la), ele enfatiza a dificuldade de
quantificar e seguir algo tão imaterial quanto a informação.
Esse
fluxo de dados não existia no final do século XIX, quando John D. Rockefeller
fundou a Standard Oil. “Há vozes que dizem que os limites já não importam.
Acredito que é algo exagerado, mas certamente é significativa a capacidade de
algumas empresas de se expandir em negócios de todo tipo”, afirma Ghemawat. A
Amazon não é apenas uma das empresas que mais cresceram os últimos anos; também
é uma das que mais se diversificaram. É líder em comércio eletrônico e uma das
maiores plataformas logísticas e de marketing, além de fornecer sistemas de
armazenamento na nuvem (tem a CIA entre seus clientes). E mais:
produz filmes e séries, comprou uma rede de supermercados e acaba de lançar sua
própria linha de roupa. Será que a Amazon está grande demais?
As
grandes corporações modernas despontaram no final do século XIX como resultado
da produção e da distribuição em massa, segundo teorizou Alfred D. Chandler,
professor da Harvard Business School, que, a partir dos anos setenta, foi
pioneiro no estudo da história das empresas. Para Chandler, os managershaviam
sido os verdadeiros heróis da era industrial porque tinham organizado a
atividade econômica, acoplando partes do negócio para criar grandes companhias
como a General Motors. O acadêmico defendeu essa
ideia num de seus livros, The Visible Hand (a mão visível), de
1977, cujo título se opõe à “mão invisível”, metáfora criada pelo economista
Adam Smith no século XVIII para expressar a suposta capacidade autorreguladora
do livre mercado.
Um
exemplo extremo de grande corporação são os chaebol, conglomerados
familiares promovidos pela Coreia do Sul para reativar seu crescimento após a
guerra (1950-1953). O maior deles é a Samsung, que responde por 20% do PIB do
país asiático. Nos últimos anos, contudo, Seul tomou medidas para reduzir o
poder desses gigantes. Prova disso é a recente condenação por corrupção do
herdeiro da Samsung, Lee Jae-yong.
As
Samsung e General Motors de hoje são diferentes. Ficou para trás a repetida
frase que Charles Wilson disse nos anos cinquenta, quando era secretário de
Defesa dos EUA: “O que é bom para nosso país é bom para a General Motors.”
Antes de ocupar o cargo, Wilson dirigiu a empresa (o atual secretário de
Estado, Rex Tillerson, presidia antes a ExxonMobil). Mas a globalização levou
as grandes firmas a se dispersar pelo mundo. Por exemplo, 65% das vendas das
empresas que têm ações na Bolsa espanhola chegam do exterior.
Então,
onde se localiza o poder nesse mundo deslocado? Três analistas de sistemas
complexos do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça,
recorreram à matemática para construir um mapa da estrutura do poder econômico.
Reuniram dados de 43.060 empresas transnacionais, cruzando-os com seu conjunto
de acionistas e seu faturamento. O resultado revelou que 147 firmas controlavam
40% da riqueza, quase todas elas instituições financeiras, como Barclays Bank,
JPMorgan Chase e Goldman Sachs.
O estudo
foi publicado na revista PLoS One em 2011. Um de seus autores,
James Glattfelder, explica que a equipe trabalha para atualizar os dados. “A
previsão é que a distribuição do poder continue concentrada nas mãos de alguns
atores altamente interconectados”, diz ele. O estudo é interessante, mas
devemos considerar que as instituições financeiras nem sempre controlam o
destino das empresas das quais participam. Com muita frequência, simplesmente
administram um dinheiro que pertence a investidores privados. Glattfelder
responde que, desde 1980, e sobretudo desde a crise de 2008, há “uma enorme
concentração da propriedade de ações nas mãos de investidores institucionais”.
Tais investidores costumam ser bancos, fundos de pensão, seguros e sociedades
de investimento que aplicam grandes quantidades de dinheiro.
Desde os
anos noventa, algumas firmas são cada vez mais influentes. É o caso da BlackRock, a maior gestora de ativos do
mundo (controla cinco trilhões de dólares, quase cinco vezes o PIB espanhol).
Em maio, acionistas liderados por essa empresa se rebelaram contra a direção da
ExxonMobil para obrigá-la a informar sobre as suas medidas contra a mudança
climática.
Num
exemplo mais próximo, há algumas semanas soube-se que a decisão de empresas e
bancos catalães de transferir suas sedes partiu de Nova York e Londres. É
nessas cidades que estão os grandes gestores de fundos de investimentos, fundos
de pensão e companhias de seguro, os acionistas das entidades e os donos de
parte de sua grande dívida. A transferência de sede tentava fazer frente à
incerteza política que ameaça suas metas de rentabilidade. Nos EUA, os fundos
institucionais possuem 80% do capital do índice Standard & Poor’s 500; na
Europa, 58% do Standard & Poor’s Euro. Já na Espanha, 43% do capital está
nas mãos de fundos internacionais, um recorde.
Também
desempenham um papel importante os hedge funds (fundos
especulativos), que utilizam os mercados de derivativos para apostar na queda
de um valor negociado no futuro. Um dos mais populares é o fundo de George
Soros, conhecido por ganhar milhões após o ataque que perpetrou
contra a libra nos anos noventa, embora também tenha perdido muito dinheiro
apostando (erroneamente) numa queda das Bolsas após a vitória de Trump. Em
1998, havia cerca de 3.000 fundos desse tipo; hoje são mais de 10.000.
E volta a
surgir o papel-chave da tecnologia. É interessante o auge dos robôs no mundo
financeiro. Eles costumam ser usados, por exemplo, na gestão de um mecanismo de
nome malvado: os dark pools. São redes privadas em que
os investidores compram e vendem ações sem que se conheçam suas intenções,
evitando mudanças de valor dos títulos que possam prejudicá-los. Cerca de 42%
do volume diário negociado no mercados é feito em dark pools,
segundo a firma de consultoria Tabb Group.
Esses
mercados na sombra existem há décadas, mas se multiplicaram nos últimos anos
graças à inteligência artificial. O tempo necessário para realizar um pedido de
compra e venda passou de 20 segundos, há duas décadas, para os 10
microssegundos atuais. Ou seja: 40.000 operações num piscar de olhos. Por isso,
convém ampliar o campo de visão. Já não basta ter em conta os conselhos de
administração; a raiz do poder vai direto ao algoritmo.
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/03/economia/1509714366_037336.html
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