COMO AS EMPRESAS
BRASILEIRAS ENCARAM A RESPONSABILIDADE SOCIAL
Maior
parte das companhias é proativa, mas ainda faltam esforços para que se tornem
realmente sustentáveis
Os chamados países em desenvolvimento ganharam poder nos últimos anos e
hoje não se limitam a obedecer as regras criadas pelas potências econômicas
mundiais. Eles têm criado as suas próprias normas. Nesse cenário, para entender
as mudanças que aconteceram no desenho das cadeias globais de produção, é
importante entender o que se passa nesses mercados. Isso envolve tanto os
governos quanto a sociedade civil e as empresas.
Durante a conferência Ethos
360°, em São Paulo, os pesquisadores Afonso Fleury, professor da Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo, e Khalid Nadvi e Rudolf Sinkovics,
ambos da Universidade de Manchester, focaram sua análise na avaliação das
empresas, e de como elas enxergam a responsabilidade social. “O Brasil parece
estar à frente da China e da Índia na questão da responsabilidade social
corporativa”, afirma Khalid Nadvi.
Afonso Fleury,
responsável por coordenar a análise das empresas brasileiras no estudo
apresentado na palestra, explicou que as multinacionais brasileiras tiveram seus
modelos de negócios avaliados. “A questão é entender como entra a
responsabilidade social corporativa no modelo de negócios da empresa, como a
questão está posicionada na criação de valor, como está sendo trabalhada na
relação com o consumidor e como está afetando os resultados financeiros da
empresa”, diz.
No
estudo, foram avaliados seis pontos: custo e redução de custo, gerenciamento de
risco, vendas, reputação da marca, capacidade de atrair talentos e inovação.
Depois da análise, as empresas foram divididas em diferentes perfis: proativo,
acomodativo ou defensivo.
O
resultado pode surpreender: quase todas as empresas brasileiras foram
classificadas como proativas. Mas o professor Fleury explicou que a própria
amostra já selecionava empresas que os pesquisadores pensavam se preocupar com
a questão da responsabilidade social. Além disso, ele ressaltou as dificuldades
de medir o impacto social causado pelas empresas. Fleury disse, no entanto, que
mesmo dentro da classificação proativo, existem níveis diferentes de
preocupação. “Há as empresas realmente sustentáveis [que colocam a
sustentabilidade no centro do plano de negócios] e aquelas que são proativas na
mitigação de risco, e a maioria das empresas brasileiras se enquadra na segunda
opção”.
Khalid
Nadvi afirmou que essa linha de pesquisa é importante para “pensar em novas
normas para esses mercados e em maneiras de valorizar o que é feito nesses
países em desenvolvimento”. O professor demonstrou que países como China, Índia
e Brasil hoje não são apenas parte passiva da cadeia global de produção. O caso
do protagonismo brasileiro na pesquisa sobre açúcar e álcool, por exemplo,
merece ser investigado, defende. “Temos que entender como as empresas vão se
tornar ambientalmente sustentáveis e lidar com o desafio da sustentabilidade,
ao mesmo tempo em que lidamos com a questão de como incluir fornecedores
menores dentro da cadeia global de produção”.
Hoje,
diz Nadvi, a cadeia produtiva é constituída por muitas transações que envolvem
diversos fornecedores e atores. Essa fragmentação, segundo ele, criou problemas
como condições precárias de trabalho em algumas etapas do processo produtivo –
que, não raro, geram escândalos de compliance em empresas conhecidas.
No
entanto, Nadvi ressaltou uma diferença importante entre as empresas dos países
desenvolvidos e as empresas de países em desenvolvimento. De acordo com a
pesquisa, no segundo caso, elas geralmente são mais integradas na organização
da produção, enquanto as empresas de países desenvolvidos tendem a distribuir
mais a produção – o que gera mais riscos em relação ao compliance. Além disso,
as empresas oriundas de países em desenvolvimento cresceram internacionalmente
em países com perfil similar, “talvez porque julguem ser mais fácil competir
neles ou por conta da menor regulamentação".

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