MAKERS: CULTURA DO "FAÇA VOCÊ MESMO" PROMETE REVOLUCIONAR O
MUNDO.
Desenvolver empresas inovadoras, promover mudanças
no ensino, gerar transformação social: a cultura maker ganha força no Brasil
para impulsionar uma nova revolução tecnológica.
Equipados com
motores, fios, engrenagens e uma variedade de engenhocas, inventores de todas
as idades ocuparam a Casa Branca em 2014 para a realização de uma feira que
reúne pessoas interessadas em criar e compartilhar projetos tecnológicos.
Entusiasta da utilização de impressoras 3D, cortadoras a laser e softwares de
código livre para modelagem de peças, o então presidente norte-americano Barack
Obama afirmou que apoiar o movimento maker era essencial para fomentar uma nova
revolução industrial.
Assim como o ex-líder dos Estados Unidos, milhares de pessoas
ao redor do mundo apostam em uma nova maneira de conceber suas ideias. Saem de
cena as grandes linhas de produção industriais e são introduzidas máquinas
baratas, capazes de fabricar diferentes itens e que são operadas de maneira
simples.
"O movimento maker
começou nos hacker spaces, que juntam a ideia do ‘faça você mesmo’ com o
conceito do código aberto”, afirma Rafael Câmera, um dos sócios do PandoraLab,
que fornece tutoriais em português e comercializa kits para a fabricação de
produtos. Para colocar a mão na massa, são desenvolvidos projetos em
cooperação, e as descobertas são registradas para que outras pessoas possam ter
acesso e aprimorar os produtos.
“Há um pouco da cultura
punk, de não ter muitas regras: a pessoa se habilita e se torna mais
independente”, diz Mauricio Jabur, especialista em computação física. Com o
furor do espírito punk, makers brasileiros apresentam projetos em diferentes
áreas do conhecimento e mostram que vieram para revolucionar.
A inovação chegou à fábrica
Agilidade, cooperação,
democratização — palavras incorporadas ao vocabulário dos makers e que ajudam a
entender as possibilidades dessa nova maneira de desenvolver produtos: graças
ao aumento da circulação de informações por conta da revolução digital e ao
barateamento de maquinário (veja alguns desses equipamentos no quadro da página
ao lado), tirar as ideias do papel nunca foi tão acessível. Se ao longo dos
séculos 19 e 20 a fabricação de mercadorias dependia de uma rígida cadeia
produtiva e de segredos industriais para proteger a propriedade intelectual, os
makers propõem a criação de projetos em espaços abertos e com interação
constante entre os inventores.
Com tantas
possibilidades para a inovação, os conceitos do movimento maker ganharam os
corredores de grupos econômicos tradicionais. “As empresas precisam desenvolver
produtos com maior agilidade, mas essas mercadorias ficam cada vez menos tempo
no mercado”, afirma Ricardo Cavallini, fundador da plataforma Makers, que realiza
projetos para educação e inovação. “Há a necessidade de uma mudança de cultura,
para que a empresa fique mais apta a fazer inovação de maneira aberta e
compartilhada.”
Para demonstrar que o
desenvolvimento de produtos pode ser feito com maior colaboração, a WeFab
desenvolve projetos para introduzir a cultura maker nas empresas. “Realizamos
workshops para trazer o espírito de colaboração e mostrar como diferentes áreas
de grandes empresas podem participar desse processo”, diz Heloisa Neves, uma das
sócias da iniciativa — Natura e L’Oréal são algumas das companhias que
solicitaram consultorias.
Até grandes montadoras
automotivas recorreram às tecnologias abertas para promover mudanças na linha
de montagem: a francesa Renault utiliza impressoras 3D para desenvolver
protótipos de peças, em um processo que diminui o tempo de fabricação e reduz
os custos finais na área de pesquisa e desenvolvimento. “O universo maker é
poderoso quando se apoia na indústria”, diz Neves.
Apelidada de “Cinturão Enferrujado”, a zona das antigas
cidades fabris dos Estados Unidos ganhou um novo fôlego graças ao surgimento de
negócios ligados à cultura maker: na cidade de Pittsburgh, localizada na região
nordeste do país, espaços abertos para desenvolvimento de projetos tecnológicos
e pesquisas de engenharia robótica realizadas nas universidades locais fizeram
dinamizar o setor econômico e expandir as oportunidades de empregos.
Educação na prática
De acordo com dados da
Fundação Lemann, mesmo estudantes de escolas de elite do Brasil apresentam um
desempenho em Matemática inferior ao de alunos dos 35 países que compõem a
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Para
especialistas em educação, a dificuldade dos brasileiros em entender conceitos
apresentados em sala de aula seria resolvida com o estudo prático.
“A formação de
professores ainda vive em um sistema de reprodução que não tem permitido
avanços em práticas inovadoras”, afirma Luciano Meira, professor da
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e sócio-fundador da Joy Street,
empresa que desenvolve games educacionais no formato de e-sports para ensinar
conteúdos abordados na prova do Enem. “Ao colocar quatro crianças em uma
bancada resolvendo problemas interessantes, você está construindo uma premissa
de inovação”, diz Meira. “Uma série de estudos demonstra que professores em
locais improváveis e com recursos apenas suficientes são capazes de formar
equipes de robótica e dar vez à inventividade dos estudantes.”
Exemplos de interação entre a teoria e a prática já estão sendo
desenvolvidos. Fundada em 2015, a Escola de Inventor iniciou suas atividades
oferecendo cursos de robótica para crianças, que aprendiam o desenvolvimento de
programação e a fabricação elétrica e mecânica dos robôs. Com o sucesso das
oficinas, os sócios da instituição, localizada em Ribeirão Preto, no interior
de São Paulo, planejam criar uma escola regular para estudantes do Ensino
Fundamental.
“Estamos montando uma
equipe multidisciplinar, com engenheiros, arquitetos e psicológos, para
desenvolver conteúdos que serão utilizados por pedagogos como métodos ativos de
aprendizagem e ensino de ciência aplicada”, afirma João Guilherme Camargo,
coordenador da escola.
A experiência com os
cursos que já são ministrados anima os fundadores: ao ensinar a construir um
sabre de luz, por exemplo, os professores transmitem conceitos dos circuitos
elétricos em paralelo. “As crianças têm uma relação mais profunda com a
aprendizagem ao construir conhecimento por meio de um objeto”, diz Camargo. “Há
o fortalecimento do trabalho de equipe e a tolerância ao fracasso: mesmo que um
projeto dê errado, isso pode ser o estopim para que se possa melhorar em uma
nova etapa.”
Fonte: http://revistagalileu.globo.com/Tecnologia/noticia/2017/11/makers-cultura-do-faca-voce-mesmo-promete-revolucionar-o-mundo.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário