O EXTRATIVISMO COMO PROJETO DE SOCIEDADE
Pilhagem
frenética de riquezas, que marca América do Sul, não é apenas problema
ambiental — mas retrato de um capitalismo que trocou trabalho pela rapina,
consumo e ostentação
Por Raul Zibechi |
Tradução: Cauê Seignemartin Ameni
À medida em que o extrativismo e
os processos políticos assentados neste modelo começam a mostrar rachaduras,
pela abrupta queda dos preços das commodities, estamos em melhores condições
para compreender suas características profundas e as limitações das análises
anteriores. Uma delas, e devemos assumir a autocrítca em primeira pessoa,
consiste em ter mirado primordialmente o aspecto ambiental, e depredador da
natureza, deste modelo de conversão de bens comuns em mercadorias.
Agora podemos dar um passo a
mais, algo que já fizeram os zapatistas há mais de uma década, quando definiram
este modelo como quarta guerra mundial. O outro erro de vulto foi considerar o
extrativismo como modelo econômico, seguindo o conceito de acumulação por
desapropriação de David Harvey. Em suma, ao erro de ter centrado as críticas –
de modo quase exclusivo – na questão ambiental, somou-se o do economicismo, de
que adoecemos muitos dos formadosno marxismo.
O capitalismo não é uma economia,
mas um tipo de sociedade (ou formação social), apesar de existir,
evidentemente, uma economia capitalista. Com o extrativismo sucede algo
similar. Se a economia capitalista é acumulação por extração de mais-valia
(reprodução ampliada do capital), a sociedade capitalista produziu a separação
da esfera econômica da política. A economia extrativista — de conquista, roubo
e pilhagem — é apenas um aspecto de uma sociedade extrativista, ou uma formação
social extrativista, que é a característica do capitalismo na fase em que o
capital financeiro é dominante.
Para além dos termos, interessa
sublinhar que vivemos numa sociedade cuja cultura dominante é de apropriação e
roubo. Por que enfatizar a existência, hoje, de uma cultura extrativista —
diferente da que foi hegemônica em outros períodos do capitalismo? Porque nos
ajuda a compreender em que tipo de mundo vivemos e as características do modelo
contra o qual nos rebelamos.
Para compreender melhor em que
consiste essa cultura, seria necessário compará-la com a cultura hegemônica nos
períodos anteriores. Por exemplo, durante o predomínio da indústria e do Estado
desenvolvimentista. Naquela época, os trabalhadores manuais da indústria
sentiam orgulho de seu oficio por serem produtores de riqueza social (embora
uma parte substancial fosse apropriada pelo patrão). Este orgulho tomava forma
de consciência de classe quando se identificavam os interesses próprios por
meio da resistência aos exploradores. Não era o orgulho tolo de quem acredita
ser superior, mas o produto do lugar que os operários ocupavam na sociedade;
lugar que não haviam herdado, mas construído por meio de uma luta longa e
paciente.
Entre meados do século 19 e as
primeiras décadas do 20, os operários – e às vezes as operárias – formavam a si
mesmos à luz de velas, logo após rígidas jornadas de 12 de trabalho, criando
espaços próprios de encontro e ócio (escolas, teatros, bibliotecas,
cooperativas, sindicatos). Instituíram formas de vida com base na ajuda mútua,
criaram maravilhas como a Comuna de Paris e a Revolução de Outubro, além de uma
larga série de insurreições urbanas. Tinham motivos para ter a autoestima
elevada.
Na vida cotidiana, a cultura
operária girava em torno do trabalho, da austeridade por convicção, da poupança
como norma da vida e da solidariedade como religião. O macacão de trabalho e o
capacete eram sinais de identidade que circulavam em seus bairros, uma vez que
não queriam vestir-se como os patrões. Tudo em suas vidas, desde a moradia até
os hábitos, diferenciava-os dos exploradores. Essa cultura tinha
traços opressores, como bem sabem as mulheres e os filhos dos operários
industriais. Mas, era uma cultura própria, baseada no autocultivo de si mesmos,
não na imitação de cima.
Esta longa explanação busca
chegar a um ponto central: a cultura operária podia conectar com a emancipação.
A cultura extrativista vai a contrapelo. Embora portasse elementos opressivos,
aquela cultura continha aspectos valiosos, potencialmente anticapitalistas.
A cultura extrativista é o
resultado da mutação gerada pelo neoliberalismo, montado no capital financeiro.
O trabalho não tem o menor valor positivo; este lugar é ocupado agora pela
pilhagem e suas faces auxiliares, o consumismo e a ostentação. Onde antes havia
o orgulho por fazer, a cultura gira agora em torno da ostentação de marcas e
modas. Enquanto os operários condenavam o roubo, por razões estritamente
éticas, hoje festeja-se a rapina, mesmo que as vítimas sejam vizinhos, amigos e
até a família.
Nem toda a sociedade nutre esta
forma de viver, é claro. Mas são maneiras de viver que ganharam terreno em
sociedades onde os jovens não têm emprego digno nem lugar, nem a possibilidade
de construir um ofício trabalhando, nem de conseguir um mínimo ascenso social
após anos de esforço. Não há nem memória daquele passado, o que é mais
pernicioso, por violar a dignidade.
O extrativismo evaporou os
sujeitos, porque na chamada “produção” eles já não estão presente. Inclusive na
esfera da reprodução da vida, o sistema esforça-se por mercantilizar tudo — do
nascimento à alimentação, arremetendo contra o papel central das mulheres
nesses espaços. Aí está a importância das micro-resistências: os bairros, os
territórios populares, as praças, as feiras de troca, as festas de rua,
os espaços coletivos de qualquer tipo tipo. Elas alimentam as grandes
rebeliões.
Se é certo que a cultura
hegemônica do extrativismo obstrui os processos emancipatórios, a organização e
as resistências, estamos diante da necessidade imperiosa de trabalhar o
contrapeso dessa cultura. O cimento do novo mundo está aí, na vida cotidiana.
Por isso, o empenho nos trabalhos coletivos, em todas as resistências. Esses
trabalhos moldam uma cultura nova, que resgata o melhor da cultura operária e
tenta aplacar as opressões.

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