terça-feira, 23 de junho de 2015

ADMINISTRAÇÃO: CIÊNCIA OU TÉCNICA?



ADMINISTRAÇÃO: CIÊNCIA OU TÉCNICA?


Para chegar a uma resposta plausível para a indagação acima, se faz necessário definir os termos que constituem partes intrínsecas desta pergunta: o que é administração? O que é técnica? O que é Ciência? Os presentes escritos se propõem refletir filosoficamente a condição da administração. Sendo assim, a filosofia, como ciência que possui um método, estabelece questionamentos e não tem compromisso com as respostas, dito de outra forma, não se preocupa tanto com a formulação de respostas – como verdades absolutas – quanto com a elaboração de um bom questionamento.

            Com relação à administração – já em trabalhado anterior – vale ressaltar a atribuição histórica do termo, originado entre os gregos perpassando a história ocidental, culminando na modernidade como resultado de um processo evolutivo no exercício de estratégias e ações pré-estabelecidas para alcançar certa eficácia na condução das relações econômicas e produtivas. Neste sentido, a administração pode ser considerada como um processo de manuseio de instrumentos já determinados, seja no setor privado, ou público. Por seu turno, a  técnica consiste em compreender um conjunto de normas, de  regras que orientam um certo modo de fazer e/ou conduzir ações, que possibilitem dirigir de forma eficaz determinadas atividades, entre elas a atividade de administrar.
            Sobre a técnica: O pressuposto da técnica é o de causalidade, ou seja, há uma conexão racional entre duas coisas. A causa é a ação de uma determinada força que gera um efeito. A ação racional possibilita deduzir o efeito de determinada relação de regras e normas postas em prática, considerando a uniformidade e a constância da ação previsível e determinante. O primeiro a refletir sobre a causa foi Platão, a partir de Aristóteles, ao afirmar que a verdadeira causa de uma coisa é aquilo que, para a coisa é o melhor, ou seja, a ideia, ou o estado perfeito da própria coisa. O primeiro a cunhar uma noção de causalidade foi Aristóteles, em sua obra intitulada “Metafísica”, onde cunha uma profunda reflexão sobre causalidade, demonstrando uma estreita relação entre causa e substância. Ou seja, de procurar compreender, o que faz a coisa ser exatamente aquilo que é.
            Para os filósofos Estóicos causa é uma força produtiva, ou seja, é aquilo que precede por uma determinada ação, ou efeito. Este termo também é refletido e cristianizado no período medieval. Segundo Tomás de Aquino, a única e verdadeira causa é Deus e todas as outras são apenas ocasiões, a partir da quais Ele se serve para realizar os seus decretos, a causa não causada, mas incausada. Esta noção de ordem causal no mundo conforma a visão moderna da ciência, principalmente com Copérnico, Kepler e Galileu, que constituem as bases organizacionais dos primórdios da ciência, que de certa forma, consistia numa técnica e não propriamente em ciência (como se entende nos tempos hodiernos) devido ao seu processo mecanicista. A racionalidade consistia apenas em entender a ação de causa e efeito.
            Esta noção de causa e efeito permaneceu na ciência moderna como sistema interpretativo - através da razão - das leis da natureza. Ou seja, há um determinismo necessário, que através da razão, confere a possibilidade de interpretar e interferir nos “meios” para alterar os “fins”. A racionalidade assume uma natureza tecnicista e, consequentemente se torna um instrumento de coisificação – tornar coisa - e colonização–supremacia do sistema sobre o humano - do mundo da vida, termos estes cunhados por filósofos da Escola de Frankfurt, entre outros críticos desta forma de compreensão de ciência.
            O processo de racionalização possibilitou ao ser humano a tomada de iniciativas, que levaram à melhoria da qualidade de vida, da produção econômica,  da superação de doenças, de afirmação da individualidade,  da auto-realização, da administrabilidade da vida e dos recursos disponíveis. Portanto, estas perspectivas, sociais políticas, econômicas e culturas se conformou através de uma racionalidade instrumental e técnica. A facilidade de atingir um alto índice de consumidores para seus produtos faz com que empresas invistam em propagandas, fazendo do ser humano um “meio” para se chegar ao lucro, possibilitando a realização do projeto de instrumentalização de uma razão. A técnica também levou-nos à destruição através de projetos militares, facilitando massacres e destruindo o próprio ser humano, um exemplo clássico é a “Bomba Atômica”, com alto poder de destruição e a administração dos campos de concentração nazista, assim como no fascismo e outros totalitarismos.
            Uma característica própria do homem moderno é a sua capacidade de pôr todas as coisas contra si, diante de si, enquanto as transforma em objeto, delas dispondo para sua auto realização no mundo, supondo a interação do ser humano no contexto universal da realidade, isto faz a modernidade apresentar-se essencialmente técnica. Sob tais pressupostos, percebe-se a influência direta do “sistema econômico” na vida social humana. Um exemplo é a busca pelo “controle do mercado Financeiro” e a busca de estabilidade econômica, dando “alma” (no sentido de dar vida, autonomia a algo inanimado). Um exemplo disso é a afirmação proclamada com certa frequência: “Precisamos acalmar o mercado”. Isto repassa uma ideia de controle do “mercado” em relação ao ser humano. A função da economia é de facilitar o quotidiano da humanidade, mas a partir do momento em que o “sistema econômico” passa a influenciar diretamente no modo de vida do ser humano, o “meio”, que possibilitava uma melhoria na qualidade de vida, passa a exercer um papel “instrumentalizador”, onde todas as atenções se voltam, não para o ser humano, mas para o sistema que é resultado de uma técnica administrativa.
            Neste sentido, a técnica é o ato de calcular as probabilidades que irão conformar determinados “fins”. Isto condicionado através de “meios” específicos relacionados a finalidades como resultados da aplicação de instrumentos já estabelecidos.
            Com relação à ciência: É comum em propagandas, determinados produtos serem rotulados como “cientificamente comprovados”. Esta visão de ciência tem uma íntima relação com a confiança de irrefutabilidade proporcionada pelo senso comum e pelo mercado em busca de novos consumidores. O que está em jogo é a qualificação do produto, através de resultados de aplicações instrumentais de testes aos quais os produtos são submetidos.
            Francis Bacon elabora um método de pesquisa baseado em três pressuposições centrais: 1. A etapa inicial da investigação científica, segundo Bacon, consiste em observar e elaborar catálogos. 2. As observações devem ser neutras, ou seja, não deve haver qualquer antecipação teórica ou formulação de pré-conceitos religiosos, teóricos ou filosóficos. 3. Das observações são extraídas informações supostamente seguras por indução, ou seja, através da observação de particulares se generaliza, sendo o processo inverso – da elaboração de proposições particulares da geral - uma dedução.
            Vale ressaltar que este é apenas um método elaborado por Francis Bacon no século XV e, posteriormente utilizadas por alguns cientistas nos primórdios da ciência moderna. Esta visão atualmente está superada, argumento este que demonstra que a ciência não é algo estático, mas se faz e refaz na história e pela história.
            A noção de causa e efeito entrou em crise. Atualmente o conceito de ciência não está mais relacionado à ideia de conhecimento das causas que resultou na forma racional tecnicista e instrumental, de interferência da espécie humana na natureza, com o mundo e consigo mesma. A ciência não tem pretensões de absoluto, mas sua validade deve ser confirmada pela demonstração, descrição e corrigibilidade.
            Com relação à demonstrabilidade, para garantir sua validade – sendo a ciência o conhecimento que busca a garantia da própria validade – as afirmações cientificas devem ser demonstradas, ou seja, interligadas num sistema onde todas as afirmações devem ser necessárias e comprovem àquilo que se pretende, formando os nexos possíveis, tornando a demonstração científica mais válida do que a opinião, segundo Platão.
            Para Aristóteles, o conceito de ciência é próximo ao de Platão, ou seja, considera a ciência um conhecimento demonstrativo. Segundo o filósofo Sexto Empírico (Século II a.C.), a ciência é a compreensão segura, certa e imutável, fundada pela razão, sendo ela uma formulação racional que pode ser demonstrada superando o senso comum é envolto de opiniões sob o domínio da fé e crenças.
            O filósofo de Könisberg, Emanuel Kant (1724-1804), na sua obra “Crítica da Razão Pura”, introduziu a noção de sistema ao conceito de ciência, segundo o autor, “a unidade sistemática é o que antes de tudo faz de um conhecimento comum uma ciência, isto é, de um simples agregado uma ciência”. Essa visão Kantiana tornou-se comum na filosofia do século XIX, a ponto de filósofos como Hegel, Schelling e Fichte afirmarem que o único saber sistemático é o filosófico. Portanto sendo a filosofia o único conhecimento considerado científico.
            A ciência não é um saber acabado, absoluto e constituído de verdades dogmáticas, mas está sempre em construção. Ela tende a ser um sistema, uma unidade, uma totalidade organizada sem contradição e em construção, autocorrigível e, voltado à falsificação das proposições. Sendo assim, a noção de ciência como conhecimento certo e demonstrável se apresenta como superado.
            Após esta reflexão pode-se inquirir se a administração         é uma técnica ou uma ciência. Ao que parece, diante disso, é que a administração não se apresenta como ciência. Dito de outra forma é uma técnica que possibilita aplicar mecanismos organizacionais conduzindo ações que determinam uma finalidade.
            A prática administrativa não consiste em comprovar, falsear ou demonstrar fatos ou teorias, mas sim operacionalizar dados, coordenar, comandar, organizar, prever e controlar a partir de uma determinada estrutura privada ou pública. Isto não pode ser considerado demérito, mas sim ela assume seu sentido operacional tecnicista, ou seja, uma ação previamente estabelecida, organizativa que não consiste propriamente na submissão a um sistema e/ou método científico.

Alceu Junior Maciel

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