ADMINISTRAÇÃO: CIÊNCIA OU TÉCNICA?
Para chegar a uma
resposta plausível para a indagação acima, se faz necessário definir os termos
que constituem partes intrínsecas desta pergunta: o que é administração? O que
é técnica? O que é Ciência? Os presentes escritos se propõem refletir
filosoficamente a condição da administração. Sendo assim, a filosofia, como
ciência que possui um método, estabelece questionamentos e não tem compromisso
com as respostas, dito de outra forma, não se preocupa tanto com a formulação
de respostas – como verdades absolutas – quanto com a elaboração de um bom
questionamento.
Com relação à administração – já em trabalhado
anterior – vale ressaltar a atribuição histórica do termo, originado entre os
gregos perpassando a história ocidental, culminando na modernidade como
resultado de um processo evolutivo no exercício de estratégias e ações
pré-estabelecidas para alcançar certa eficácia na condução das relações
econômicas e produtivas. Neste sentido, a administração pode ser considerada
como um processo de manuseio de instrumentos já determinados, seja no setor
privado, ou público. Por seu turno, a técnica consiste em compreender um conjunto de
normas, de regras que orientam um certo
modo de fazer e/ou conduzir ações, que possibilitem dirigir de forma eficaz determinadas
atividades, entre elas a atividade de administrar.
Sobre
a técnica: O pressuposto da técnica é o de causalidade, ou seja, há uma
conexão racional entre duas coisas. A causa é a ação de uma determinada força
que gera um efeito. A ação racional possibilita deduzir o efeito de determinada
relação de regras e normas postas em prática, considerando a uniformidade e a
constância da ação previsível e determinante. O primeiro a refletir sobre a causa foi Platão, a partir de
Aristóteles, ao afirmar que a verdadeira causa de uma coisa é aquilo que, para
a coisa é o melhor, ou seja, a ideia, ou o estado perfeito da própria coisa. O
primeiro a cunhar uma noção de causalidade foi Aristóteles, em sua obra
intitulada “Metafísica”, onde cunha
uma profunda reflexão sobre causalidade, demonstrando uma estreita relação
entre causa e substância. Ou seja, de procurar compreender, o que faz a coisa
ser exatamente aquilo que é.
Para os filósofos Estóicos causa é uma força produtiva, ou seja, é
aquilo que precede por uma determinada ação, ou efeito. Este termo também é refletido e cristianizado no período
medieval. Segundo Tomás de Aquino, a única e verdadeira causa é Deus e todas as
outras são apenas ocasiões, a partir da quais Ele se serve para realizar os
seus decretos, a causa não causada, mas incausada. Esta noção de ordem causal
no mundo conforma a visão moderna da ciência, principalmente com Copérnico,
Kepler e Galileu, que constituem as bases organizacionais dos primórdios da
ciência, que de certa forma, consistia numa técnica e não propriamente em
ciência (como se entende nos tempos hodiernos) devido ao seu processo
mecanicista. A racionalidade consistia apenas em entender a ação de causa e
efeito.
Esta noção de causa e efeito
permaneceu na ciência moderna como sistema interpretativo - através da razão -
das leis da natureza. Ou seja, há um determinismo necessário, que através da
razão, confere a possibilidade de interpretar e interferir nos “meios” para
alterar os “fins”. A racionalidade assume uma natureza tecnicista e,
consequentemente se torna um instrumento de coisificação – tornar coisa - e
colonização–supremacia do sistema sobre o humano - do mundo da vida, termos
estes cunhados por filósofos da Escola de Frankfurt, entre outros críticos
desta forma de compreensão de ciência.
O processo de racionalização
possibilitou ao ser humano a tomada de iniciativas, que levaram à melhoria da
qualidade de vida, da produção econômica, da superação de doenças, de afirmação da individualidade,
da auto-realização, da
administrabilidade da vida e dos recursos disponíveis. Portanto, estas
perspectivas, sociais políticas, econômicas e culturas se conformou através de
uma racionalidade instrumental e técnica. A facilidade de atingir um alto
índice de consumidores para seus produtos faz com que empresas invistam em
propagandas, fazendo do ser humano um “meio” para se chegar ao lucro,
possibilitando a realização do projeto de instrumentalização de uma razão. A
técnica também levou-nos à destruição através de projetos militares,
facilitando massacres e destruindo o próprio ser humano, um exemplo clássico é
a “Bomba Atômica”, com alto poder de destruição e a administração dos campos de
concentração nazista, assim como no fascismo e outros totalitarismos.
Uma característica própria do homem
moderno é a sua capacidade de pôr todas as coisas contra si, diante de si,
enquanto as transforma em objeto, delas dispondo para sua auto realização no
mundo, supondo a interação do ser humano no contexto universal da realidade,
isto faz a modernidade apresentar-se essencialmente técnica. Sob tais
pressupostos, percebe-se a influência direta do “sistema econômico” na vida
social humana. Um exemplo é a busca pelo “controle do mercado Financeiro” e a
busca de estabilidade econômica, dando “alma” (no sentido de dar vida,
autonomia a algo inanimado). Um exemplo disso é a afirmação proclamada com
certa frequência: “Precisamos acalmar o mercado”. Isto repassa uma ideia de controle
do “mercado” em relação ao ser humano. A função da economia é de facilitar o
quotidiano da humanidade, mas a partir do momento em que o “sistema econômico”
passa a influenciar diretamente no modo de vida do ser humano, o “meio”, que
possibilitava uma melhoria na qualidade de vida, passa a exercer um papel
“instrumentalizador”, onde todas as atenções se voltam, não para o ser humano,
mas para o sistema que é resultado de uma técnica administrativa.
Neste sentido, a técnica é o ato de
calcular as probabilidades que irão conformar determinados “fins”. Isto
condicionado através de “meios” específicos relacionados a finalidades como
resultados da aplicação de instrumentos já estabelecidos.
Com
relação à ciência: É comum em propagandas, determinados produtos serem
rotulados como “cientificamente comprovados”. Esta visão de ciência tem uma
íntima relação com a confiança de irrefutabilidade proporcionada pelo senso
comum e pelo mercado em busca de novos consumidores. O que está em jogo é a
qualificação do produto, através de resultados de aplicações instrumentais de
testes aos quais os produtos são submetidos.
Francis Bacon elabora um método de
pesquisa baseado em três pressuposições centrais: 1. A etapa inicial da
investigação científica, segundo Bacon, consiste em observar e elaborar catálogos.
2. As observações devem ser neutras, ou seja, não deve haver qualquer
antecipação teórica ou formulação de pré-conceitos religiosos, teóricos ou
filosóficos. 3. Das observações são extraídas informações supostamente seguras
por indução, ou seja, através da observação de particulares se generaliza,
sendo o processo inverso – da elaboração de proposições particulares da geral -
uma dedução.
Vale ressaltar que este é apenas um
método elaborado por Francis Bacon no século XV e, posteriormente utilizadas por
alguns cientistas nos primórdios da ciência moderna. Esta visão atualmente está
superada, argumento este que demonstra que a ciência não é algo estático, mas
se faz e refaz na história e pela história.
A noção de causa e efeito entrou em
crise. Atualmente o conceito de ciência não está mais relacionado à ideia de
conhecimento das causas que resultou na forma racional tecnicista e
instrumental, de interferência da espécie humana na natureza, com o mundo e
consigo mesma. A ciência não tem pretensões de absoluto, mas sua validade deve
ser confirmada pela demonstração, descrição e corrigibilidade.
Com relação à demonstrabilidade,
para garantir sua validade – sendo a ciência o conhecimento que busca a
garantia da própria validade – as afirmações cientificas devem ser
demonstradas, ou seja, interligadas num sistema onde todas as afirmações devem
ser necessárias e comprovem àquilo que se pretende, formando os nexos
possíveis, tornando a demonstração científica mais válida do que a opinião,
segundo Platão.
Para Aristóteles, o conceito de
ciência é próximo ao de Platão, ou seja, considera a ciência um conhecimento
demonstrativo. Segundo o filósofo Sexto Empírico (Século II a.C.), a ciência é
a compreensão segura, certa e imutável, fundada pela razão, sendo ela uma
formulação racional que pode ser demonstrada superando o senso comum é envolto
de opiniões sob o domínio da fé e crenças.
O filósofo de Könisberg, Emanuel
Kant (1724-1804), na sua obra “Crítica da Razão Pura”, introduziu a noção de
sistema ao conceito de ciência, segundo o autor, “a unidade sistemática é o que
antes de tudo faz de um conhecimento comum uma ciência, isto é, de um simples
agregado uma ciência”. Essa visão Kantiana tornou-se comum na filosofia do
século XIX, a ponto de filósofos como Hegel, Schelling e Fichte afirmarem que o
único saber sistemático é o filosófico. Portanto sendo a filosofia o único
conhecimento considerado científico.
A ciência não é um saber acabado,
absoluto e constituído de verdades dogmáticas, mas está sempre em construção.
Ela tende a ser um sistema, uma unidade, uma totalidade organizada sem contradição
e em construção, autocorrigível e, voltado à falsificação das proposições.
Sendo assim, a noção de ciência como conhecimento certo e demonstrável se
apresenta como superado.
Após esta reflexão pode-se inquirir
se a administração é uma técnica
ou uma ciência. Ao que parece, diante disso, é que a administração não se
apresenta como ciência. Dito de outra forma é uma técnica que possibilita
aplicar mecanismos organizacionais conduzindo ações que determinam uma
finalidade.
A prática administrativa não
consiste em comprovar, falsear ou demonstrar fatos ou teorias, mas sim
operacionalizar dados, coordenar, comandar, organizar, prever e controlar a
partir de uma determinada estrutura privada ou pública. Isto não pode ser
considerado demérito, mas sim ela assume seu sentido operacional tecnicista, ou
seja, uma ação previamente estabelecida, organizativa que não consiste
propriamente na submissão a um sistema e/ou método científico.
Alceu Junior Maciel

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