segunda-feira, 8 de junho de 2015

A EMERGÊNCIA DA ADMINISTRAÇÃO NO MUNDO GLOBALIZADO



A EMERGÊNCIA DA ADMINISTRAÇÃO NO MUNDO GLOBALIZADO

O objetivo do presente texto não é a apresentação de uma verdade, ou a resolução de problemas que possam facilitar o modo pelo qual conduzimos as nossas vidas, mas sim (talvez o contrário), garantir uma reflexão em torno do modo pelo qual concebemos a “administração” do tempo e do espaço em que circunscrevemos nossas existências na contemporaneidade.


Talvez seja possível partir do argumento de que não pode ser considerada acaso a concomitante emergência da economia e da administração na modernidade. Ambas as áreas possuem como objetivo o estudo da produção, da circulação, da distribuição de bens e, da organização de recursos sociais. Porém, há uma especificidade na administração, uma vez que a mesma, objetiva responder às necessidades relacionadas às organizações privadas e estatais em seu fazer burocratizado e burocratizante. Se considerarmos o surgimento de um modelo estatal participante do processo econômico privado (característica do Estado Liberal) perceberemos a íntima e contraditória relação entre Política e Administração. É necessário ainda, considerar que na modernidade, o Estado se caracteriza como dispositivo técnico/administrativo/racional da vida dos indivíduos inseridos na sociedade. A técnica administrativa/governamental/econômica opera como dispositivo de segurança e controle que condiciona a vida humana obediente à lógica da plena produção e do consumo.

Para entendermos a emergência da administração moderna, é necessário considerar alguns aspectos centrais para a conformação do mundo moderno. Se para os gregos a possibilidade da felicidade se dava no âmbito da pólis, ou seja, na capacidade de atingir as possibilidades da vida pública, agora se torna unânime o reconhecimento da relação entre felicidade e uma vida econômica de sucesso. Em outras palavras, a felicidade é atrelada a um determinado aglomerado de dispositivos, que atuam como determinantes para o modo de vida humano. Associado a isso, a sociedade do espetáculo e do controle em tempo real/virtual e integral requer uma série de aclamações “públicas” para se firmar como princípio norteador da existência. O bem estar relaciona-se com o desenvolvimento da economia que, ao mesmo tempo, exige um sistema de crenças demonstrado na (dês)confiança no Mercado como critério para explicar comportamentos que conduzem ao definhamento econômico. Percebe-se que a modernidade gerou a fusão na sociedade Ocidental com o fundamento socioeconômico que se apresenta como sentido e finalidade da existência humana. Além de tudo, presenciamos uma economia que acumula a função de permitir ou não o direito à vida, à liberdade, ao bem viver. Ela se apresenta como um fim em si mesmo, ao mesmo tempo em que os rituais de conduta se tornam meios inflexíveis e necessários para uma vida econômica resolvida e/ou bem sucedida.

 A transitoriedade acelerada e burocratizada da vida, da produção e do consumo, coloca a administração como tarefa de fundamental importância na sociedade moderna. Sempre existiram maneiras e objetos para administrar. Porém agora, ela se tornou uma ocupação especializada. Como não há um princípio norteador automático, dotado de leis gerais para determinar a produção e distribuição de bens, bem como na organização de recursos humanos, a administração caracteriza-se como uma técnica heterogênea de poder que transita entre dispositivos transcendentes, humanos e materiais. Para melhor compreensão, podemos tomar o termo positivité utilizado pelo filósofo Hegel, traduzido como “dispositivo” na tradição latina do termo grego oikonomia. Ou no filósofo francês Michel Foucault (1924-1984) e, no filósofo italiano Giorgio Agamben (1947 ....), quando indicam em suas análises as formas de conceber o mundo, os objetos que passam a dispor da vida humana, de conformar-lhe um horizonte de sentido e finalidade. Os dispositivos não são um incidente em que os homens são conduzidos por acaso, mas têm raiz no processo de “humanização”. O evento que produziu o humano é, certamente, algo parecido como uma divisão(cisão), como a oikonomia, ou a própria ação ou ato de administração da casa,. Ou dito de outra forma, para conferir sentido e finalidade à existência e preciso continuamente promover “cisões”. Aqui, mais uma vez podemos estabelecer um vínculo com  Agamben e a problemática da teologia dos primeiros séculos em que se colocava em jogo a realidade transcendente e terrena, procurando justificar o fato de como o Deus cristão poderia governar os seres terrenos e celestes. Assim, o termo dispositivo se tornou central na construção da moral religiosa/social ocidental, na condição de separação e/ou articulação do Deus Ser e Práxis e a possibilidade de administração do mundo das criaturas. O dispositivo, como aquilo que dispõe algo, subjetiva e “mascara” a vida.

Neste contexto, podemos levar em consideração as reflexões do filósofo alemão Martin  Heidegger[1] ao tratar a questão da técnica e, tomá-la na sua origem grega. O referido filósofo deixa claro o vínculo com a economia dos antigos gregos.  Seus apontamentos consideram a técnica moderna impensável afastada da Ciência Moderna.  A técnica na modernidade dispõe da natureza e do humano a partir de pressupostos pragmáticos e utilitaristas característicos do Ocidente transcendentemente governado e administrado pela economia de mercado. Também se encontra inseparável no processo de objetivação o surgimento do sujeito moderno de Descartes. Ou seja, de que o homem moderno se tornou técnico. O que importa no pensar é a mensuração e o cálculo dos seres. Trata-se de uma orientação para nosso modo de agir, que se aplica no enfrentamento da existência. Em outras palavras, as formas de governar-dispor-administrar assumem, mais do que nunca, a condição ontológica do Ocidente moderno, que de alguma maneira, encontra sua gênese nas origens da visão de mundo cristã. Se na Modernidade se desenvolve a dimensão técnica da razão, mas também do Estado Técnico-Administrativo, se torna de suma importância o entendimento do desenvolvimento e multiplicação de dispositivos como possibilidade de administração do mundo. Em outras palavras, se na origem grega a técnica se aplicava à oikos como uma forma de administrar a casa, o Estado Moderno, como aquele que assume a responsabilidade de administrar a vida humana, é agora reduzido à sua dimensão biológica.

Um novo fato histórico pode ser reconhecido como decisivo na economia da modernidade. A produção predominante deixou de ser em pequena e média escala (ou familiar) para se tornar parte integrante de grandes organizações públicas e privadas de caráter burocráticas. Nesse sentido, se apresenta a possibilidade de entendimento do capitalismo contemporâneo como uma acumulação de dispositivos, onde a vida humana é modelada, capturada, direcionada, definida pelos mesmos, fazendo com que os humanos fiquem encantados, fascinados com o “poder dos dispositivos”. No bojo das extremidades assumidas pelo capitalismo, se encontra a submissão da política aos fascínios da economia afirmada pelo Estado Moderno. Ou dito de outra forma, aquilo que concebemos como política na atualidade, apresenta-se como gestão dos recursos humanos em suas particularidades e na totalidade da população por parte da Razão de Estado.

Dessa maneira, coloca-se em jogo o determinismo da economia como a única forma de sobreviver e qualificar a existência, e com isso, quando afirmamos a determinação negamos a liberdade de fazer escolhas pautadas na autonomia. Assim sendo, a proposta liberal-democrática se apresenta como contradição aos princípios de uma autonomia da razão, ao mesmo tempo em que se propõe como o melhor dos sistemas político-econômicos, mascara a condição ditatorial da vida fadada à mera produção e consumo. Ou seja, o humano se encontra privado de fazer escolhas, pois o sistema político-econômico sobrevive da potencialização dos desejos para a circulação de produtos. Acima de tudo, o humano se torna um ser em potência para participar de um projeto de salvação, de felicidade, que será alcançado na medida em que consome determinadas mercadorias, que por natureza não devem ser duráveis. O giro de mercadorias, por sua vez, promove o aceleramento da produção de bens de consumo, geração de mais trabalho e de mais mercadorias a serem consumidas por mais indivíduos. O Estado arrecada mais, o que permite maior segurança e a “engorda” do rebanho governado. Mesmo outras formas de política que surgiram no decorrer da história, também as que contrapõem o sistema liberal-democrático, apenas afirmam as tendências Ocidentais, onde persiste a saga em busca do melhor governo, o mais eficiente na condução e gestão da sociedade. 

Se em um primeiro momento, mais precisamente entre os gregos, a administração era resultado de esforços gerenciais do espaço econômico privado na garantia da sobrevivência da condição biológica, a modernidade recrutou a humanidade, os seres humanos, como meio eficiente a ser administrado pela e para a economia. Mais do que um sarcasmo, literalmente, aquilo que antes servia a humanidade e ao seres humanos, agora se serve da humanidade e possui existência própria. Os dispositivos econômicos não garantem simplesmente a sobrevivência humana, mas sobrevive do humano e já alcança a condição ontológica de permitir ou não a sobrevivência dos indivíduos. Já não é mais o homem que estabelece normas para administrar a vida, mas a própria oikonomia se encarrega de traçar as escolhas dos indivíduos, completando um ciclo do tempo de existência de vidas que aguardam por melhores pastagens.

A partir do processo acelerado do desenvolvimento e do caráter técnico-administrativo da existência na modernidade, delibera-se ser na ação. Ou seja, a povoação do mundo através da infinidade de artefatos titubeantes permite o entendimento do humano sempre mediante dispositivos que circulam e circundam o existir. A percepção em relação à rotina das nossas vidas produz a sensação de que o tempo já não é mais suficiente para cumprir todas as atividades a nós impostas. Se na mitologia grega Cronos devorava seus filhos, na modernidade seu apetite parece insaciável, pois, já não é mais possível sentir (viver) a existência uma vez que o momento presente já está atrelado como condição para um amanhã seguro. Porém, ao lado do caráter pessimista da experiência com o tempo cada vez mais acelerado, podemos dar lugar a uma perspectiva otimista ao percebemos que a mortalidade que confere qualidade à vida. Assim sendo, em meio à intensidade dos afazeres, se torna pertinente valorizar o tempo que resta e, procurar se tornar dono das escolhas e do escasso e valioso tempo.


[1] Se pensarmos a técnica a partir da palavra grega téchne e de seu contexto, técnica significa: ter conhecimentos na produção. Téchne designa uma modalidade de saber. Produzir quer dizer: conduzirá sua manifestação, tornar acessível e disponível algo que, antes disso, ainda não estava aí como presente. Este produzir, vale dizer o elemento próprio da técnica, realiza-se de maneira singular, em meio o Ocidente europeu, através do desenvolvimento das modernas ciências matemáticas da natureza. Seu traço básico é o elemento técnico, que pela primeira vez apareceu, em sua forma nova e própria, através da física moderna. Pela técnica moderna é descerrada a energia oculta na natureza, o que se descerra é transformado, o que se transforma é reforçado, o que se reforça é armazenado, o que se armazena é distribuído. As maneiras pelas quais a energia da natureza é assegurada são controladas. O controle, por sua vez, também deve ser assegurado. ((HEIDDEGER. 2002, p.85).

Autor : Jonas Fabio Maciel

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