A EMERGÊNCIA DA
ADMINISTRAÇÃO NO MUNDO GLOBALIZADO
O
objetivo do presente texto não é a apresentação de uma verdade, ou a resolução
de problemas que possam facilitar o modo pelo qual conduzimos as nossas vidas,
mas sim (talvez o contrário), garantir uma reflexão em torno do modo pelo qual
concebemos a “administração” do tempo e do espaço em que circunscrevemos nossas
existências na contemporaneidade.
Talvez
seja possível partir do argumento de que não pode ser considerada acaso a
concomitante emergência da economia e da administração na modernidade. Ambas as
áreas possuem como objetivo o estudo da produção, da circulação, da distribuição
de bens e, da organização de recursos sociais. Porém, há uma especificidade na
administração, uma vez que a mesma, objetiva responder às necessidades
relacionadas às organizações privadas e estatais em seu fazer burocratizado e
burocratizante. Se considerarmos o surgimento de um modelo estatal participante
do processo econômico privado (característica do Estado Liberal) perceberemos a
íntima e contraditória relação entre Política e Administração. É necessário
ainda, considerar que na modernidade, o Estado se caracteriza como dispositivo
técnico/administrativo/racional da vida dos indivíduos inseridos na sociedade. A
técnica administrativa/governamental/econômica opera como dispositivo de
segurança e controle que condiciona a vida humana obediente à lógica da plena produção
e do consumo.
Para
entendermos a emergência da administração moderna, é necessário considerar
alguns aspectos centrais para a conformação do mundo moderno. Se para os gregos
a possibilidade da felicidade se dava no âmbito da pólis, ou seja, na capacidade de atingir as possibilidades da vida
pública, agora se torna unânime o reconhecimento da relação entre felicidade e
uma vida econômica de sucesso. Em outras palavras, a felicidade é atrelada a um
determinado aglomerado de dispositivos, que atuam como determinantes para o
modo de vida humano. Associado a isso, a sociedade do espetáculo e do controle
em tempo real/virtual e integral requer uma série de aclamações “públicas” para
se firmar como princípio norteador da existência. O bem estar relaciona-se com
o desenvolvimento da economia que, ao mesmo tempo, exige um sistema de crenças
demonstrado na (dês)confiança no Mercado como critério para explicar
comportamentos que conduzem ao definhamento econômico.
Percebe-se que a modernidade gerou a fusão na sociedade Ocidental com o
fundamento socioeconômico que se apresenta como sentido e finalidade da existência
humana. Além de tudo, presenciamos uma economia que acumula a função de
permitir ou não o direito à vida, à liberdade, ao bem viver. Ela se apresenta
como um fim em si mesmo, ao mesmo tempo em que os rituais de conduta se tornam
meios inflexíveis e necessários para uma vida econômica resolvida e/ou bem
sucedida.
A transitoriedade acelerada e burocratizada da
vida, da produção e do consumo, coloca a administração como tarefa de
fundamental importância na sociedade moderna. Sempre existiram maneiras e
objetos para administrar. Porém agora, ela se tornou uma ocupação
especializada. Como não há um princípio norteador automático, dotado de leis
gerais para determinar a produção e distribuição de bens, bem como na
organização de recursos humanos, a administração caracteriza-se como uma
técnica heterogênea de poder que transita entre dispositivos transcendentes,
humanos e materiais. Para melhor compreensão, podemos tomar o termo positivité utilizado pelo filósofo
Hegel, traduzido como “dispositivo” na tradição latina do termo grego oikonomia. Ou no filósofo francês Michel
Foucault (1924-1984) e, no filósofo italiano Giorgio Agamben (1947 ....), quando
indicam em suas análises as formas de conceber o mundo, os objetos que passam a
dispor da vida humana, de conformar-lhe um horizonte de sentido e finalidade.
Os dispositivos não são um incidente em que os homens são conduzidos por acaso,
mas têm raiz no processo de “humanização”. O evento que produziu o humano é,
certamente, algo parecido como uma divisão(cisão), como a oikonomia, ou a própria ação ou ato de administração da casa,. Ou
dito de outra forma, para conferir sentido e finalidade à existência e preciso
continuamente promover “cisões”. Aqui, mais uma vez podemos estabelecer um
vínculo com Agamben e a problemática da
teologia dos primeiros séculos em que se colocava em jogo a realidade
transcendente e terrena, procurando justificar o fato de como o Deus cristão
poderia governar os seres terrenos e celestes. Assim, o termo dispositivo se
tornou central na construção da moral religiosa/social ocidental, na condição
de separação e/ou articulação do Deus Ser e Práxis e a possibilidade de
administração do mundo das criaturas. O dispositivo, como aquilo que dispõe
algo, subjetiva e “mascara” a vida.
Neste
contexto, podemos levar em consideração as reflexões do filósofo alemão Martin Heidegger[1]
ao tratar a questão da técnica e, tomá-la na sua origem grega. O referido
filósofo deixa claro o vínculo com a economia dos antigos gregos. Seus apontamentos consideram a técnica moderna
impensável afastada da Ciência Moderna. A
técnica na modernidade dispõe da natureza e do humano a partir de pressupostos
pragmáticos e utilitaristas característicos do Ocidente transcendentemente
governado e administrado pela economia de mercado. Também se encontra
inseparável no processo de objetivação o surgimento do sujeito moderno de
Descartes. Ou seja, de que o homem moderno se tornou técnico. O que importa no
pensar é a mensuração e o cálculo dos seres. Trata-se de uma orientação para
nosso modo de agir, que se aplica no enfrentamento da existência. Em outras
palavras, as formas de governar-dispor-administrar assumem, mais do que nunca,
a condição ontológica do Ocidente moderno, que de alguma maneira, encontra sua
gênese nas origens da visão de mundo cristã. Se na Modernidade se desenvolve a
dimensão técnica da razão, mas também do Estado Técnico-Administrativo, se
torna de suma importância o entendimento do desenvolvimento e multiplicação de
dispositivos como possibilidade de administração do mundo. Em outras palavras,
se na origem grega a técnica se aplicava à oikos
como uma forma de administrar a casa, o Estado Moderno, como aquele que
assume a responsabilidade de administrar a vida humana, é agora reduzido à sua
dimensão biológica.
Um novo fato
histórico pode ser reconhecido como decisivo na economia da modernidade. A
produção predominante deixou de ser em pequena e média escala (ou familiar)
para se tornar parte integrante de grandes organizações públicas e privadas de
caráter burocráticas. Nesse sentido, se apresenta a possibilidade de
entendimento do capitalismo contemporâneo como uma acumulação de dispositivos,
onde a vida humana é modelada, capturada, direcionada, definida pelos mesmos,
fazendo com que os humanos fiquem encantados, fascinados com o “poder dos
dispositivos”. No bojo das extremidades assumidas pelo capitalismo, se encontra
a submissão da política aos fascínios da economia afirmada pelo Estado Moderno.
Ou dito de outra forma, aquilo que concebemos como política na atualidade,
apresenta-se como gestão dos recursos humanos em suas particularidades e na
totalidade da população por parte da Razão de Estado.
Dessa maneira,
coloca-se em jogo o determinismo da economia como a única forma de sobreviver e
qualificar a existência, e com isso, quando afirmamos a determinação negamos a
liberdade de fazer escolhas pautadas na autonomia. Assim sendo, a proposta
liberal-democrática se apresenta como contradição aos princípios de uma
autonomia da razão, ao mesmo tempo em que se propõe como o melhor dos sistemas
político-econômicos, mascara a condição ditatorial da vida fadada à mera
produção e consumo. Ou seja, o humano se encontra privado de fazer escolhas,
pois o sistema político-econômico sobrevive da potencialização dos desejos para
a circulação de produtos. Acima de tudo, o humano se torna um ser em potência
para participar de um projeto de salvação, de felicidade, que será alcançado na
medida em que consome determinadas mercadorias, que por natureza não devem ser
duráveis. O giro de mercadorias, por sua vez, promove o aceleramento da
produção de bens de consumo, geração de mais trabalho e de mais mercadorias a
serem consumidas por mais indivíduos. O Estado arrecada mais, o que permite
maior segurança e a “engorda” do rebanho governado. Mesmo outras formas de
política que surgiram no decorrer da história, também as que contrapõem o
sistema liberal-democrático, apenas afirmam as tendências Ocidentais, onde persiste
a saga em busca do melhor governo, o mais eficiente na condução e gestão da
sociedade.
Se em um primeiro
momento, mais precisamente entre os gregos, a administração era resultado de
esforços gerenciais do espaço econômico privado na garantia da sobrevivência da
condição biológica, a modernidade recrutou a humanidade, os seres humanos, como
meio eficiente a ser administrado pela e para a economia. Mais do que um
sarcasmo, literalmente, aquilo que antes servia a humanidade e ao seres humanos,
agora se serve da humanidade e possui existência própria. Os dispositivos
econômicos não garantem simplesmente a sobrevivência humana, mas sobrevive do
humano e já alcança a condição ontológica de permitir ou não a sobrevivência
dos indivíduos. Já não é mais o homem que estabelece normas para administrar a
vida, mas a própria oikonomia se encarrega
de traçar as escolhas dos indivíduos, completando um ciclo do tempo de
existência de vidas que aguardam por melhores pastagens.
A
partir do processo acelerado do desenvolvimento e do caráter
técnico-administrativo da existência na modernidade, delibera-se ser na ação.
Ou seja, a povoação do mundo através da infinidade de artefatos titubeantes permite
o entendimento do humano sempre mediante dispositivos que circulam e circundam
o existir. A percepção em relação à rotina das nossas vidas produz a sensação
de que o tempo já não é mais suficiente para cumprir todas as atividades a nós
impostas. Se na mitologia grega Cronos
devorava seus filhos, na modernidade seu apetite parece insaciável, pois, já
não é mais possível sentir (viver) a existência uma vez que o momento presente
já está atrelado como condição para um amanhã seguro. Porém, ao lado do caráter
pessimista da experiência com o tempo cada vez mais acelerado, podemos dar lugar
a uma perspectiva otimista ao percebemos que a mortalidade que confere
qualidade à vida. Assim sendo, em meio à intensidade dos afazeres, se torna
pertinente valorizar o tempo que resta e, procurar se tornar dono das escolhas
e do escasso e valioso tempo.
[1] Se
pensarmos a técnica a partir da palavra grega téchne e de seu contexto, técnica significa: ter conhecimentos na
produção. Téchne designa uma
modalidade de saber. Produzir quer dizer: conduzirá sua manifestação, tornar
acessível e disponível algo que, antes disso, ainda não estava aí como
presente. Este produzir, vale dizer o elemento próprio da técnica, realiza-se
de maneira singular, em meio o Ocidente europeu, através do desenvolvimento das
modernas ciências matemáticas da natureza. Seu traço básico é o elemento
técnico, que pela primeira vez apareceu, em sua forma nova e própria, através
da física moderna. Pela técnica moderna é descerrada a energia oculta na
natureza, o que se descerra é transformado, o que se transforma é reforçado, o
que se reforça é armazenado, o que se armazena é distribuído. As maneiras pelas
quais a energia da natureza é assegurada são controladas. O controle, por sua
vez, também deve ser assegurado. ((HEIDDEGER. 2002, p.85).
Autor
: Jonas Fabio Maciel
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