CONSTRUIR
OUTRO MUNDO,
EM MEIO À TEMPESTADE
O signo
da próxima década pode ser a turbulência. O declínio do poder norte-americano,
agora evidente, é bem-vindo – mas tende a provocar, no curto prazo, desordens e
ameaças. Será preciso evitar abismos. Mas, como em toda encruzilhada, haverá
espaço para alternativas e escolhas.
No
momento em que nos aproximamos da próxima década, é possível antecipar grande
turbulência em duas frentes – a arena geopolítica e a economia mundial, com o
relativo declínio do poder geopolítico norte-americano, agora percebido por
quase todos, e que nem mesmo um Obama presidente será capaz de reverter.
Estamos
caminhando para um mundo verdadeiramente multipolar, em que o poder de Estados
relativamente fracos tornou-se subitamente muito maior. O Oriente Médio atual é
um exemplo. A Turquia agencia a retomada de negociações entre Síria e Israel,
congeladas há muito. O Qatar agencia uma trégua negociada entre facções
libanesas ferozmente opostas. A Autoridade Palestina retomou negociações com o
Hamas. E o governo paquistanês entrou numa trégua de facto com o Taliban nas
zonas fronteiriças ao Afeganistão. O significativo destas ações é que os
Estados Unidos se opuseram a todas elas e foram simplesmente ignorados – sem
nenhuma conseqüência séria para qualquer dos atores.
Além
dos EUA, União Européia e Japão, há agora a Rússia, China, Índia, Irã, Brasil –
como líder presumido do bloco sul-americano – e África do Sul – líder presumido
do bloco sul-africano. Há um imenso terreno para alianças, com debates internos
sobre parceiros ideais e ampla incerteza sobre o que decidirão. Além disso,
outros países como Polônia, Ucrânia, Coréia do Sul, Paquistão, Egito, Nigéria,
México e Canadá já não têm certezas sobre quais seus espaços de atuação. A
situação geopolítica é claramente distinta de todas que o mundo viveu há um bom
tempo. Não é a anarquia total, mas certamente desordem geopolítica maciça.
O declínio do dólar provavelmente prosseguirá. Não
está claro se o euro poderá substituí-lo. Pode sobrevir um cenário confuso, em
que não há moeda internacional de referência, o que amplia a instabilidade.
Esta
desordem geopolítica está acompanhada por incertezas agudas sobre a economia
mundial. Há, antes de mais nada, o tema das moedas. Vivemos, pelo menos desde
1945, num mundo estabilizado pelo dólar. O declínio dos Estados Unidos, em
particular como lócus dominante da
produção mundial, combinado com a ultra-expansão de sua dívida, causou um sério
declínio do dólar, cujo patamar final ainda é obscuro, mas será provavelmente
inferior ao atual.
O
declínio do dólar representa um sério dilema econômico para outros países,
particularmente aqueles que converteram sua nova riqueza em títulos e estoques
denominados nesta moeda. Estes países estão divididos entre sustentar os EUA,
destino muito importante de suas exportações, e evitar as perdas reais que
sofre o valor de seus ativos vinculados ao dólar. Especulam sobre a
possibilidade de abandoná-lo. Mas como em todas as saídas financeiras, a
questão para os possuidores de ativos é o timing – nem muito cedo, nem tarde
demais.
O
dólar poderá ser substituído como reserva monetária mundial? O candidato óbvio
é o euro. Mas não se sabe ainda se ele poderá cumprir este papel, ou se os
governos europeus estão dispostos a promovê-lo a tal condição – embora não seja
impossível que o processo os atropele.
Em
lugar do euro, poderíamos ter uma situação pluri-monetária, em que dólar, euro,
iene, o renminbi chinês e a libra fossem todos utilizáveis para transações
internacionais? A resposta aqui é similar à das alianças geopolíticas. Não
seria a anarquia total, mas certamente desordem, e os governos e produtores
tenderiam a sentir-se muito inconfortáveis – para não falar dos aposentados em
todo o mundo.
Governos incapazes de assegurar a manutenção da
Saúde, Educação e Previdência — três formas-chave de redistribuição social —
perderiam legitimidade abruptamente, com eventuais levantes civis.
Muitos
países grandes viveram amplo aumento tanto de produção quanto nos níveis de
consumo. Veja-se os tão-comentados BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – que
abrigam cerca de 60% da população mundial O aumento em seus níveis de produção
e consumo produzir um enorme aumento da demanda por energia, matérias-primas,
alimentos e água. Alguma coisa vai acontecer. Pode haver uma grande onda
mundial de inflação, se os preços de todas as commodities continuarem a disparar, alimentados pelo crescimento da
demanda e pela especulação. Uma conseqüência não-descartável seria o
protecionismo maciço: governos limitando fortemente as exportações, para
proteger seu abastecimento interno.
As
experiências anteriores mostram que isso pode criar círculos viciosos
erráticos. Ou pode haver enormes desabastecimentos localizados, resultando em
altos índices de mortalidade e sérias catástrofes ambientais.
Os
governos atingidos por quedas na receita, e pressionados a não compensá-las via
aumentos de tributos, poderiam cortar despesas nas áreas-chaves de Educação,
Saúde e Previdência. Mas são terrenos que, como parte da democratização do
mundo nos dois últimos séculos, transformaram-se nas expectativas mais
importantes das sociedades em relação a seus governos. Dirigentes incapazes de
assegurar a manutenção destas três formas de redistribuição social da riqueza
perderiam legitimidade abruptamente, com resultados incertos em termos de
levantes civis.
É
exatamente a este cenário, muito negativo a curto prazo, que nos referimos
quando dizemos que o sistema ultrapassou o equilíbrio, ingressando num estado
de caos. O caos é claro, nunca dura para sempre. As situações caóticas acabam
gestando a própria solução de suas crises, naquilo que Prigogine e Stengers
chamaram de “ordem emanada do caos”, em sua obra clássica, [1]. Como os
autores frisam, no centro de uma encruzilhada há criatividade e alternativas,
mas nunca se sabe que escolhas serão feitas.
Debatamos o rumo a seguir, ignorando os Estados e os
objetivos nacionais. Assumamos, porém compromissos com ambos no curto prazo,
para evitar os abismos.
Na
batalha entre esquerda e direita, a primeira viveu um ascenso vertiginoso nos
últimos duzentos anos – especialmente no século 20. A esquerda mobilizou apoio
em grande escala e com muita eficácia. Houve um momento, no pós-II Guerra, em
que isso parecia ocorrer em toda parte e de todas as maneiras.
Então,
vieram as grandes desilusões. Os Estados onde os movimentos anti-sistêmicos
chegaram ao poder, de uma ou de outra maneira, estiveram na prática muito
distantes daquilo que as forças populares esperavam deles. E a
irreversibilidade destes regimes mostrou-se outra ilusão. No início dos anos
90, todo o triunfalismo da esquerda mundial tinha sido varrido – e substituído
por uma letargia generalizada, freqüentemente uma sensação de fracasso.
Porém
como sabemos, o sentimento de vitória da direita evaporou-se igualmente – de
modo ainda mais espetacular quando afundou a aposta dos neoconservadores, que
apostavam numa permanente dominação imperial norte-americana. Da rebelião
zapatista em 1994 aos protestos bem-sucedidos que inviabilizaram a reunião da
OMC em Seattle, em 1999, e à fundação do Fórum Social Mundial (FSM), em 2001,
em Porto Alegre, uma esquerda reacesa e transformada emergiu na cena mundial.
Vivemos
num ambiente mundial caótico e é difícil enxergar com clareza. É mais ou menos
como tentar seguir adiante numa grande tempestade de neve. Os que quiserem
sobreviver precisam examinar tanto a bússola — para saber em que direção
caminhar — quanto o terreno alguns centímetros à frente – para não despencar em
algum precipício. A bússola guia nossos objetivos de médio prazo, indica o tipo
de novo sistema mundial que queremos construir. Os centímetros à nossa frente
são a política do mal menor. Se não nos preocuparmos com ambos, estaremos
perdidos. Debatamos o rumo da bússola, ignorando os Estados e os objetivos
nacionais. Assumamos, porém compromissos com ambos no curto prazo, para evitar
os abismos. Desse modo, teremos uma chance de sobrevivência, uma chance de
construir o outro mundo.
[1] Ilya Prigogine &
Isabelle Stengers. A Nova Aliança: Metamorfose da Ciência. Editora da UnB,
Brasília, 1984.
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