PODER,
GEOPOLÍTICA E DESENVOLVIMENTO.
Nunca
haverá lugar ao sol para todos, no sistema interestatal capitalista.
Curiosamente, todos os “ganhadores” desrespeitaram, um dia, regras
estabelecidas
“Em última instancia, os processos de
desenvolvimento econômico
também são lutas de dominação”
Max Weber, Escritos Políticos.
também são lutas de dominação”
Max Weber, Escritos Políticos.
O capitalismo
nasceu associado com um sistema de poder específico, o sistema interestatal
europeu. E desde o início, foi um dos principais instrumentos de poder dos
estados que se impuseram, dentro e fora da Europa, transformando-se nas
primeiras “grandes potências” do sistema. Durante os cinco séculos seguintes, o
desenvolvimento destas “grandes potências” exerceu um efeito gravitacional e
expansivo sobre todo o “sistema interestatal capitalista”, que foi ampliando
suas fronteiras de maneira contínua, como se fosse um “universo em expansão”.
Dentro deste “universo”, foram sendo criados e incorporados sucessivamente
novos estados e economias nacionais que competem e se hierarquizam
dinamicamente, podendo ser classificados em três grandes grupos:
i.
Num primeiro grupo, situam-se os estados e as economias nacionais que adotam
estratégias de integração direta, com relação às potencias líderes. Fala-se em
“desenvolvimento a convite” ou “associado” para referir-se a estes países com
acesso privilegiado aos mercados e aos capitais das grandes potências,
obtidos em troca da submissão à sua política externa e à sua estratégia
militar global. Como foi o caso do Canadá, Austrália e Nova Zelândia, antes e
depois de sua independência e também, da Alemanha, Japão e Coréia, depois da
Segunda Guerra Mundial, na condição de protetorados militares dos EUA.
ii.
Num segundo grupo, situam-se os países que questionam a hierarquia
internacional e adotam estratégias de mudança do status quo e
de crescimento acelerado, com o objetivo de mudar sua participação na
distribuição internacional do poder e da riqueza. São projetos nacionais que
podem ser bloqueados, e podem não conseguir superar as “barreiras à entrada” do
“núcleo central”, impostas pelas grandes potências. Mas que também podem ter
sucesso e dar origem a uma nova potência regional ou global, como foi o
caso dos EUA, na primeira metade do século XX, e da China, neste início
do XXI.
iii.
Por fim, num terceiro grupo, incluem-se todos os demais países do “andar de
baixo” ou a “periferia” política e econômica do sistema. São estados e
economias que podem ter fortes ciclos de crescimento e ter indústrias, mas que
não têm condições ou não se propõem desafiar a ordem estabelecida, e aceitam
sua posição política subalterna, dentro do sistema internacional de poder; e se
mantêm como fornecedores de commodities e
bens industriais específicos, com é o caso do Chile, Colômbia e Peru,
entre muitos outros.i
Na
outra ponta do sistema, o pequeno grupo das grandes potencias
“ganhadoras” também é hierarquizado e reproduz internamente – num outro patamar
de poder — a mesma dinâmica competitiva de todo este universo. Mas mesmo assim,
é possível identificar duas grandes regularidades na sua trajetória
“vitoriosa”:
1º.
Todos enfrentaram, em algum momento, invasões externas, guerras civis ou
rebeliões sociais, e estes acontecimentos contribuíram, de uma forma ou outra,
para o fortalecimento de suas identidades nacionais e para a mobilização de
suas sociedades em torno de grandes projetos de defesa e/ou de projeção
internacional. Por estarem situados dentro de tabuleiros geopolíticos altamente
competitivos, estes países também compartiram um sentimento constante de
“cerco” e de ameaça externa, que explica a centralidade dos seus sistemas de
defesa na definição de suas politicas de desenvolvimento e industrialização, e
sua permanente preocupação com a conquista e o controle monopólico das
“tecnologias sensíveis” que foram decisivas para o seu sucesso de toda a sua
economia nacional.
2º.
Todos seus estados e seus grandes capitais privados “desrespeitaram”
sistematicamente as regras e instituições competitivas de mercado que devem ser
obedecidas obrigatoriamente pelos que estão situados nos degraus inferiores do
sistema. Neste ponto, pode-se formular uma lei quase universal: quem liderou a
expansão vitoriosa do capitalismo foram sempre os estados e os capitais que
souberam navegar com sucesso na contramão das “leis do mercado”, ou seja,
os “grandes predadores” que conseguem manter e renovar permanentemente o
seu controle monopólico das “inovações”, e dos “lucros extraordinários”.
Este
caminho dos “ganhadores” está aberto para todos os países? Não, porque a
energia que move este sistema vem exatamente desta luta contínua, entre
estados, economias nacionais e capitais privados, pela conquista de posições e
de monopólios que são desiguais, por definição. Mesmo assim, alguns estados
podem modificar sua posição relativa dentro deste sistema, dependendo do seu
território, dos seus recursos e da sua coesão social. E da existência de uma
elite política capaz de assumir as grandes pressões sociais e o aumento dos
desafios e provocações externas, como sinal de amadurecimento de um país que já
está preparado para sustentar uma estratégia de longo prazo, de questionamento
do status quo internacional, e de desenvolvimento com mobilidade social
generalizada.
Por José Luís Fiori
Fonte: http://outraspalavras.net/posts/poder-geopolitica-e-desenvolvimento/
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