A
PREPOTÊNCIA DO MERCADO FINANCEIRO NA FORMAÇÃO DE CONSENSOS
A
conversinha da “confiança” oculta a usurpação das decisões e das informações
que afetam a vida dos cidadãos
A economia brasileira foi enfiada no buraco da depressão pelos
corifeus da “confiança”, uma forma degenerada de exprimir a complexidade da
análise keynesiana a respeito das expectativas empresariais diante da incerteza
radical em que são tomadas as decisões de gasto e investimento. Keynes dizia:
“Nosso
conhecimento dos fatores que governarão o rendimento de um investimento alguns
anos mais tarde é, em geral, muito limitado e, com frequência, desdenhável.
Para falar com franqueza, temos de admitir que as bases de nosso conhecimento
para calcular o rendimento provável, nos próximos dez anos ou mesmo cinco anos,
de uma estrada de ferro, uma mina de cobre, uma fábrica de tecidos, um produto
farmacêutico patenteado, uma linha transatlântica de navios ou um imóvel na
City de Londres se reduzem a bem pouco e às vezes a nada”.
Diante
da incerteza radical, os detentores de riqueza são compelidos a tomar
decisões apoiados em convenções a respeito das perspectivas da economia. Keynes
sugere que as decisões individuais dos agentes só podem apoiar-se no que eles
imaginam ser as opiniões dos demais. No capítulo XII da Teoria Geral, os
concursos de beleza promovidos pelos jornais servem de exemplo para descrever a
formação de convenções nos mercados de ativos.
Os
leitores são instados a escolher os seis rostos mais bonitos entre uma centena
de fotografias. O prêmio será entregue ao leitor cuja escolha esteja mais
próxima da média das opiniões. Não se trata, portanto, de apontar o rosto mais
bonito na opinião de cada um dos participantes, mas de escolher o rosto que
mais se aproxima da opinião dos demais.
Keynes,
desse modo, introduz na teoria econômica as relações complexas entre Estrutura
e Ação, entre papéis sociais e sua execução pelos indivíduos convencidos de sua
liberdade e autodeterminação, mas, de fato, enredados nas perversidades do
futuro incognoscível.
Keynes,
na esteira de Freud, introduz as configurações subjetivas produzidas pelas
interações entre grupos sociais e seus indivíduos. Estão aí implícitos os
processos de individuação mediados pelo objetivo da produção capitalista, a
acumulação de riqueza monetária.
Nesse
percurso, as decisões capitalistas podem dar origem a situações nas quais a
busca da riqueza abstrata transforma-se em um obstáculo para a economia gerar
emprego e renda para os que dependem dos espíritos animais dos empresários.
Keynes
repudiava veementemente as políticas de curto prazo, que julgava
“oportunistas”, típicas do keynesianismo bastardo. Ele revela suas concepções em resposta irada a seu amigo James Meade:
“Você
acentua demais a cura e muito pouco a prevenção. A flutuação de curto prazo no
volume de gastos em obras públicas é uma forma grosseira de cura, provavelmente
destinada ao insucesso. Por outro lado, se a maior fração do investimento está
sob o controle público ou semipúblico e assim caminhamos para um programa de
estabilidade de longo prazo, flutuações mais intensas serão muito menos
prováveis de acontecer. Eu sinto, portanto, que você não faz justiça ao
investimento sob controle público ao simplesmente enfatizar a deficiência desse
método, enquanto subestima sua eficácia para propósitos preventivos e como
forma de evitar flutuações pronunciadas, as quais, uma vez tendo ocorrido, são
tão difíceis de enfrentar”.
A geração de déficits monumentais e as políticas exasperadas de
liquidez são “formas grosseiras” e danosas de sustentação do lucro
macroeconômico e de proteção dos portfólios privados. Na ausência de políticas
de coordenação sistemática do investimento, tais formas grosseiras tornam-se imprescindíveis
para evitar o desastre de uma depressão e o ônus da crise para a população.
Hoje
em dia, a palavra de ordem é fazer genuflexão diante dos poderes da finança. A
conversinha da “confiança” oculta a usurpação das decisões e das informações
que afetam a vida dos cidadãos.
Poderosas
na formação de consensos e na captura dos corações e mentes mediante patranhas
midiáticas, as tropas da finança abusam da prepotência e de malfeitorias quando
incumbidas de definir os critérios de avaliação dos riscos no festival de
desinformações e desenganos que levou a economia brasileira ao desastre de
2015.

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